Revendo a Religião

3 Julho, 2008

A Arte da Dissimulação

Religiosos, munidos de uma necessidade apodíctica de autodestruição, buscam criar um habitat completamente alheio ao mundo real, uma espécie de realidade paralela construída pelo desespero e pela crescente necessidade de condenação intelectual, governado tão somente pelo homem-poderoso e por seus filhos terrenos.

Pergunto-me, primeiramente, se os fiéis são simplesmente amauróticos, ou se os mesmos possuem um desejo incomensurável de afastamento da vida real, a qual é, por essência, repleta de desilusões e sofrimentos. Certamente seria agradabilíssimo viver em um recanto iluminado pelas “graças divinas”, isolado de toda maldade e à prova de contestações! Um local virtual, imune a crimes e barbáries, uma vez que todos os filhos maculados pelo carinho (e proteção!) do senhor todo-poderoso estariam em um mesmo lugar, presumindo-se que toda a escória ficaria apenas espreitando, confusa e invejosamente, esse pequeno pedaço de paraíso.

Porém, tal recôndito divino, cingido por bênçãos espirituais, não existe.

Os filhos de Deus não possuem uma área terrena exclusivamente circunscrita. Aqueles que entregam suas vidas, já desprovidas de muitos valores cruciais para o desenvolvimento completo do ser enquanto ser, aos “encantos” da vida religiosa, coabitam com mentes divergentes um mesmo inferno inexpugnável. Logicamente, não há distinção territorial, pois basta sairmos à rua para vermos muçulmanos, cristãos, judeus, evangélicos e ateus circulando pelas mesmas calçadas, comprando nas mesmas lojas, cruzando os mesmos corredores prediais, criando conversas vazias, desprovidas de qualquer propósito, dentro de elevadores.

Vejo pessoas diferentes, com deuses diferentes, convivendo (desarmonicamente, é verdade) lado a lado. Lembro, ainda, que (mais…)

1 Julho, 2008

O Nascer de uma Religião

Escrevi, há tempos, sobre quão antigo é o mal gerado pelo nascimento de uma religião, composta basicamente por um punhado de premissas inexistentes, que corroem aos poucos os diminutos traços de razão que o ser humano conseguiu adquirir em sua longa trajetória de evolução.

Mas, como será que, efetivamente, nasce uma religião?

Ao contrário do que você pode imaginar, não existe a necessidade de uma multidão de devotos, ou de uma horda de pregadores embriagados pelo poder. Há apenas um requisito básico para que uma nova ordem religiosa - um calabouço que trancafia em suas entranhas o lado humano do ser - surja tão repentinamente quanto a rápida chuva de verão: a ignorância humana.

Por comodidade, preguiça e falta de discernimento, o homem consegue atribuir significados estapafúrdios para coisas que, se fossem processadas através da lógica racional, poderiam ser prontamente explicadas, ou ao menos suficientemente compreendidas. Isso é tão verdade que, nos primórdios, as civilizações eram evidentemente politeístas, uma vez que atribuíam aos diversos deuses fenômenos naturais posteriormente detalhados por mentes abertas aos sinais da própria natureza, e não trancafiadas em um mundo celestial habitado por criaturas sádicas e impiedosas.

Deparando-se com aquilo que não conhece, o homem simplesmente atribui-lhe um significado divino, já que seu comodismo impede que as enferrujadas engrenagens de seu cérebro ainda primitivo trabalhem em ritmo constante e eficiente. Sempre que o tolo homem esbarra no desconhecido, o poder (mais…)

16 Junho, 2008

O Partido Religioso

É notável a influência que um calhamaço de páginas desconexas e incongruentes exerce na vida de pessoas deliberadamente afastadas das luzes do conhecimento. É, porém, assustador notar o sistema organizacional que gerencia essa complexa rede de pessoas submissas e simultaneamente frágeis.

Consecutivamente, percebo que a religião e a política são temas convergentes, por não dizer complementares. Os métodos de persuasão, de embustes pré-definidos, são perceptíveis em ambas as áreas degeneradas da cultura humana, e a força centrípeta que as falácias produzidas tanto pela política quanto pela religião exerce sobre as massas é impressionante, puxando para o centro de suas instituições deploráveis mentes errantes, desprovidas da capacidade de diferenciação entre o real e o objetivo e o irreal e fantástico.

Em comícios ou em celebrações religiosas pode-se constatar, indubitavelmente, o reforço de uma idéia desconexa pré-existente através de uma massa inculta homogeneamente insensata, isto é, o partidário ou o devoto já atendeu o requisito de ter passado pela “primeira etapa no processo de adestramento”, situação em que os ideais partidários (abrangendo-se aqui tantos os políticos quanto os religiosos, pois o princípio de ação é o mesmo) vão sendo paulatinamente difundidos e incorporados ao íntimo dessa “vítima da propaganda”, enraizando em sua índole a necessidade de formação de uma população diferenciada, composta somente por aqueles que possuem o mesmo sentimento lamentável de dependência e irracionalidade. Desse modo, quando chega ao seu encontro religioso, o crente não se depara com uma reunião composta de falas equivocadas e adeptos distantes, mas sim com uma nova ordem, uma grande família que compartilha os mesmos pensamentos irreais e a mesma necessidade de submissão intelectual. Uma vez adestrados, os religiosos não abandonam mais seu novo lar, obedecendo fielmente aos seus donos, tais como cães.

Um religioso não busca a igreja para ouvir estórias fantásticas, ou para fortalecer o seu espírito com banhos de otimismo. Um religioso vai à igreja para (mais…)

15 Maio, 2008

O Novo (Anti) Cristo

Um questionamento despontou em minha mente: se Jesus Cristo, pregador afincado, exímio político e controlador de grandes massas populacionais submissas de fato existiu, é aceitável que em mais de dois mil anos algum outro pregador conseguiria reunir características semelhantes, ou até mesmo, de certo modo, superiores.

Então, quem seria esse novo messias, essa nova criatura tocada pelo homem-invisível? Um papa, um pastor, talvez um missionário ou um novo santo?

Não, nenhum desses.

Certamente, qualquer cristão encontraria uma (falsa) dificuldade em achar um substituto para o “senhor Jesus”, mas creio que também conseguiriam enumerar vários candidatos que poderiam receber o título de “seguidor de Jesus”, ou “procurador de Jesus”.

Contudo, posso apostar todos os meus ideais para defender que nenhum deles sequer chegaria a pensar no “meu candidato”.

Antes de nomeá-lo (até com certa repugnância e inquietação), vou expor as bases do meu pensamento. Acredito que alguns irão concordar; outros indubitavelmente irão me odiar.

Leia atentamente as seguintes características do candidato a novo messias, e veja se não há uma concordância em vários pontos com as virtudes atribuídas à figura de Cristo: artista talentoso, de admirável inteligência, dominador notável das palavras, poderoso formador de opinião, conhecedor profundo de técnicas de expressão corporal e controle de público. Não obstante, adotou o cristianismo como sua religião “oficial”, pois contava com total apoio da Igreja Católica e seus membros deliqüescentes.

Mas nem só de qualidades é composto um “homem santo”, portanto enumero alguns “defeitos”: esse novo messias também foi (mais…)

10 Abril, 2008

Um Deus Distorcido

No dia dez de Abril de dois mil e oito, das dezessete às dezoito horas, através de um programa televisivo intitulado “Show da Fé”, respaldado pela Igreja Internacional da Graça de Deus, consegui compreender o significado para um verbo que realmente transita aleatória, porém constantemente, em qualquer pregação digna de um fiel e verdadeiro arauto cristão: o vocábulo “pecar”.

O “missionário” infiltrou direta e esmeradamente a idéia por trás da palavra nas frágeis mentes presentes: o verbo pecar, utilizado pelos copistas no livro Juízes (e em vários outros, é claro), significa “errar o alvo”. Para justificar seu uso, uma história narrada na seqüência do sermão demonstrava a recompensa obtida, em forma de apoio bélico divino, por “setecentos homens escolhidos, canhotos, os quais atiravam com a funda uma pedra em um cabelo, e não erravam” (ler Juízes 20:1-48). A tradução para “não erravam”, segundo o missionário, advém de “não pecavam (a mira)”. Certo, até então, nada fora dos conformes das regras gramaticais.

O que o missionário omitiu não foi o sentido gramatical do verbo, e sim o real significado acerca dessa história, o qual estava prontamente aceso em sua confusão de idéias (deve ser realmente complicado criar uma sinergia entre o impulso da fala ludibriante e a necessidade de conter eternamente no lado esquecido da razão o que realmente deveria ser dito). O pregador apenas falou que Deus (oh, senhor todo-poderoso e inexistente) necessita de pessoas realmente infalíveis, logo, que transcendam os limites físicos e psicológicos inerentes ao homem, barreiras essas de fato limitantes e certamente instransponíveis.

Não há muitas interpretações perante o fato. A mais sensata é que o missionário estava defendendo a materialização de um falso poder empíreo, numa (mais…)

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