Revendo a Religião

14/10/2010

Idoneidade Moral e Religião

Filed under: ateísmo,religião — jorgesneto @ 11:05 pm
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Sou ateu. Não procuro silenciar minhas perguntas deglutindo informações fabricadas por criaturas inescrupulosas que julgam possuir conhecimento profundo sobre coisa nenhuma, ou seja, sobre Deus. Abdico de seguir um ensinamento que traz como único “benefício” a condenação racional, pois prefiro deixar fluir em minhas veias a doce vacina do pensamento crítico e racional. Não enxergo Deus em nada, afinal, Deus não passa de uma solução criada por homens oportunistas que necessitavam comandar uma massa populacional em constante crescimento, e nada melhor do que a coerção e o medo para controlar criaturas fracas e inertes racionalmente.

Possuo pensamentos que diferem da grande maioria da população brasileira e que geralmente acabam entrando em conflito com os princípios ideológicos dessa grande massa. Através do prisma distorcido desse imenso grupo, torno-me a personificação da falta de caráter e escrúpulos, como se meus princípios ferissem as leis de convivência tal como a lâmina da espada fere a pele nua.

A sociedade que ainda segue os trilhos do pensamento bitolado não consegue enxergar a pessoa que está vinculada ao pensamento ateísta, criando, desse modo, um estereótipo totalmente incoerente. Ateus passam a ser pessoas ruins, e ponto.

Será que ateus são todos indivíduos desprezíveis? Será que todos os religiosos possuem uma idoneidade moral acima de qualquer suspeita? Ambas as afirmações são equívocas, e há provas factuais que atestam a nulidade de ambos os pensamentos.

Para os religiosos, o perdão divino transcende a opinião humana: costumam dizer que são dotados da capacidade de percorrer de modo indene os caminhos espinhosos da sociedade, guiando-se por apenas uma única lei infalível e inconteste, a lei divina. Julgam que sua idoneidade moral não depende da aceitação de seu comportamento pelos “ímpios”, mas sim do aceno positivo de um ser imaginário; desse modo, a religião passa a ser utilizada como uma ferramenta de escapismo, uma vez que os atos incoerentes com a vida em sociedade são amenizados pela soberba religiosa, no mais direto vínculo com a máxima “Deus irá me redimir dos pecados, desde que eu ore por ele e pra ele”. Há uma troca suja de favores, onde o devoto jura amor eterno ao mesmo criador que nele inseriu a ânsia pelo pecado, e o criador garante um eterno martírio para o pecador enquanto regozija-se no sofrimento da prole.

Ao contrário do que prega a convicção religiosa, o culto a alguma forma de deus e a retidão moral não compartilham a mesma sinonímia, afinal são ideologias desvinculadas. Frequentemente escutamos religiosos vangloriando-se pela recuperação de um criminoso (a quantidade de filiais de igrejas em presídios cresce em ritmo alucinante) que está encarcerado por ter transgredido as leis humanas. Mas será que o perdão divino e a introdução de uma nova religião – ou o fortalecimento da convicção religiosa já previamente existente – evitarão que esse presidiário reincida no crime? Se essa assertiva fosse positiva e inconteste, não haveria a necessidade da criação de novos presídios ou a implementação de unidades de detenção de segurança máxima! A religião não salva ninguém, apenas desvia a atenção do “eu” para o inalcançável, forçando o adepto a engendrar numa eterna busca pelo nada. O que salva ou recicla uma pessoa é a força de vontade e a determinação, independentemente da religião imposta.

Se a religião fosse, por si só, uma filosofia de vida imaculada pelos “vícios humanos”, os países mais religiosos deveriam ser também os mais desenvolvidos, éticos e estruturados, verdadeiros paraísos onde o respeito e a dedicação ao próximo forneceriam a base para um governo limpo, dedicado, estável e vitorioso. A realidade, entretanto, faz-se diferente. Tomando-se como base o Brasil podemos constatar que 92,6% da população (Censo 2000) possui alguma crença religiosa, porcentagem equivalente, na época do estudo, a aproximadamente 157,5 milhões de pessoas. Se a honra e a palavra de Deus fossem o caminho a ser seguido, deveríamos viver numa cópia fiel da morada dos deuses, pois estamos cercados por um número expressivo de seguidores do “criador do mundo”, porém sabemos que estamos infinitamente longe desse conceito idealizado: há corrupção, crimes e contravenções por toda parte, deixando-nos atônitos perante tamanha despreocupação com o semelhante. Se Deus e a religião servem de parâmetros para a sociedade, creio que o céu e o inferno possuem valores invertidos na mitologia religiosa!

Já em países onde o número de ateus e não religiosos é superior constatamos que as taxas de crimes e de corrupção são expressivamente menores, como podemos observar na Suécia, Nova Zelândia e vários outros países europeus. Obviamente não pretendo afirmar que apenas ateus são íntegros moralmente, mas defendo a ideia de que a simples ausência de um credo religioso ou da idolatria de um ser superior não resulta, de forma alguma, na ausência de retidão moral ou na probabilidade de ação criminal ou de qualquer forma danosa a outrem. Ateus não matam em nome da ciência, não enganam simpatizantes da ideologia para obterem retorno monetário ilícito ou injetam nas mentes pensantes o ódio às ideologias contrárias, apenas defendem seus princípios e ideias, de forma direta e contundente, mas jamais coerciva ou violenta.

A crença excessiva em alguma forma de Deus (e a cegueira por ela ocasionada) é capaz de se transformar no mais violento instrumento bélico, pois o motivo que gera o combate é inesgotável, assim como a ignorância dos combatentes, afinal a intolerância religiosa se origina dos próprios seguidores na busca eterna de consagrar o “seu Deus” como ”o Deus definitivo”. Tal afirmação pode ser amplamente embasada pelo “Global Peace Index (GPI)”, estudo que promove a listagem dos países mais pacíficos ao redor do globo, no qual podemos constatar que os países tidos como “mais pacíficos” possuem grande porcentagem de ateus e não religiosos (a lista é encabeçada pela Nova Zelândia, onde aproximadamente 26% da população é ateísta), ao passo que os países mais violentos são mundialmente conhecidos pela idolatria exacerbada, como o Iraque, Paquistão e Israel. Outros estudos ainda correlacionam o quociente de inteligência (QI) com a religiosidade, onde podemos constatar que os países com maior número de ateus também possuem os maiores índices de QI, o que nos faz crer que aqueles que abdicam da religião procuram respostas que nenhum livro sagrado pode fornecer, eternizando uma busca por explicações que invariavelmente leva ao enriquecimento cultural.

Os fatos atestam que a religião e a idoneidade moral não possuem o vínculo que os religiosos afirmam existir, pois a moralidade convive com o bom senso, e é exatamente essa última virtude que se faz escassa em qualquer religião. Na busca pela razoabilidade e pelo bom senso, podemos perceber que alguns países – onde a liberdade religiosa é ampla e o acesso à informação é fácil e vasto – buscam no ateísmo uma filosofia de vida que impulsiona e liberta o homem dos porões imundos das crenças religiosas, possibilitando, desse modo, a oportunidade de ver a vida com os olhos críticos da ciência, da eficácia, afastando assim o pensamento autodestrutivo promovido pelos procuradores de Deus. É por esse motivo que países como os já citados e outros, como Dinamarca, Noruega, França, Bélgica, Holanda e Alemanha, gozam de economias sólidas e respeitadas, investindo no futuro e na educação, como também ocorre com a surpreendente crescente economia chinesa.

A idoneidade moral não reside na devoção religiosa, mas sim no caráter e na personalidade individual. Obviamente nem todos ateus são íntegros, mas ao menos não vinculam o seu desempenho na sociedade a uma figura fictícia, pois assumem seus próprios erros e incapacidades. É, indubitavelmente, extremamente errado cometer falhas de convivência num mundo já conturbado, mas mais falho ainda é procurar se esconder nos braços asquerosos de uma ideologia hipócrita como a religião, que procura sanar a dor com o veneno.

COMPLEMENTAÇÕES RECOMENDADAS:

http://ec.europa.eu/public_opinion/archives/ebs/ebs_225_report_en.pdf
http://en.wikipedia.org/wiki/Demographics_of_atheism#Europe
http://en.wikipedia.org/wiki/Irreligion
http://recantodasletras.uol.com.br/artigos/1421494
http://www.youtube.com/watch?v=VdtwTeBPYQA
http://www.youtube.com/watch?v=XADxxXVUH0g

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6 Comentários »

  1. Imagino que a mioria das pessoas se tornaram atéias por desilusão que sentiram quando ñ foram bem sucedidos e nunca ouvido as suas orações feitas..; e inumeras vezes prometido algo na boca do ançião, pastor, ou padre que nunca se realizou .
    Promesas e barganhas que vc na ancia de ver seu desejo ou sua nescessidades atendidas fez e cumpriu primeiro e viu que foi em vão.
    Pessoas sonhadoras que num passe de magica ve seu mundo roer, pois era cego e ñ percebia que ainda contribuia para a lavagem celebral do mesmo,
    Eles aproveitam que ñ existe nem um lugar com inumeras pessoas que ñ haja um drogado, doente, ou seja la qual for seu problema, pois tdos os tem e eles se aproveitam disso, exorcizando os credulos que uqem resolveu foi quem prometeu, deixando sem duvida alguma o mérito para si mesmo, o que é na verdade merecidamente, lutou e viu uma saida paar o problema, ou solução paar o momento.
    Ñ sei o que sou, mas pergunto-me constantemente se valeu a pena ser e acreditar nas promessas e juras que nunca vi se cumprirem.
    Concordo com vc , pois maldades à em tdas as camadas, mas esqueceram de afirmar que os próprios são na realidade os embuste da verdade e da vida.
    Cai fora escondido e cá estou procurando as respostas lendo, aprendendo e resolvendo os meus próprios problemas.
    Espero que um dia possa contar isso´para meu esposo amado , ñ gosto da mentira e omitir para mim é uma forma dubia de esconder.
    obrigado por seu relato, agradeço se ñ me enviar nada sobre isso, pois estaria me comprometendo no meu ãmbito lar.
    Tdo de bom, sucesso na vida paar ti, pois nasci carangueijo e sei qeu por amor ficarei para sempre assim.

    Comentário por Ângela Maria.F.Sylvestre — 26/10/2010 @ 1:29 pm | Resposta

  2. Oi,

    Eu adicionei o seu blog na Central Ceticismo. Esse site reúne em um só lugar, todos os melhores sites sobre ceticismo, ateísmo, ciência e evolucionismo. De forma que o usuário possa ter um acesso fácil à atualização dos sites listados, sem necessitar recorrer um a um na busca por novos posts.

    Se possível, façamos uma parceria, divulgando o nosso banner.

    abrs,
    Central Ceticismo

    Comentário por centralceticismo.blogspot.com — 03/12/2010 @ 12:43 pm | Resposta

    • Olá;

      Parabéns pela iniciativa, extremamente necessária para que exista uma fonte direta para os temas relacionados.
      Agradeço pela inclusão do meu blog em seu catálogo.
      Peço desculpas pela demora na resposta, mas certamente irei adicionar seu link/banner em meu blog.

      Abraços!

      Comentário por jorgesneto — 05/12/2010 @ 12:06 am | Resposta

  3. Obrigado por incluir o nosso banner.

    Att,
    Central Ceticismo

    Comentário por Central Ceticismo — 06/12/2010 @ 8:58 am | Resposta

  4. Eu nasci no seio duma família camponesa pobre e religiosa e como tal fui educado no meio de rezas da minha avó e de minha mãe.Depois do exame de instrução primária,aos 12 anos meteram-me num Seminário donde fugi aos 16 anos,por me considerar indigno do sacerdócio e isto porque era crente.Cá fóra,não me adaptava à vida real,porque chocava com o modo de pensar que me tinha sido inculcado pela Religião.
    Já com 20 anos de idade é que me veio parar à mão o livro Sermões da Montanha de Tomaz da Fonseca,uma edição brasileira que era
    em Portugal proibida pela Censura do Regime clerical-fascista.E à medida que ia lendo,abria-se uma cortina que vedava o meu raciocínio e
    ao mesmo tempo deu-se em mim uma revolta por ter sido enganado durante tantos anos em que não tive a juventude normal como qualquer
    outro rapaz da minha idade.E desde então,foi Tomaz da Fonseca que me converteu ao Ateísmo.E hoje com 87 anos continuo ateu convicto
    repudiando o Deus que foi criado pelo Homem à sua imagem e semelhança e a respectiva Religião que foi concebida segundo os seus interêsses para dominar o Povo crente e supersticioso para que se mantenha submisso e de joelhos perante os Poderosos.

    Comentário por José G.Cravinho — 22/12/2011 @ 5:48 pm | Resposta

  5. Adorei seus textos, muito bons mesmo!
    Achei-os através de uma procura por coisas de George Calin (que considero perfeito em suas idéias).
    Vc tem toda razão qdo diz que a sociedade condena os ateus como se fossem a própria imagem do “demônio”, passo por isso diversas vezes no meu dia-a-dia.
    O que me acalenta é apenas considerá-los uns pobres coitados, iludidos, mascarados por diversas vezes etc e tal…

    Abraços

    Denise

    Comentário por denise — 01/03/2012 @ 6:23 pm | Resposta


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