Revendo a Religião

19/12/2013

“Segura na mão… do Demônio”

Filed under: Sem-categoria — jorgesneto @ 12:40 pm
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“Por isso eu digo a você: Deus está morto, o demônio está morto. A morte deles é muito necessária para você estar vivo. Se eles estiverem vivos, você está morto; está aprisionado de ambos os lados.”

Osho

 

 Deus está em todas as coisas. Sua confortante e agradável companhia se faz presente em todo e qualquer local, quer ele seja um longínquo e inóspito terreno glacial ou o banheiro ao lado do seu quarto. A sublime aura de paz e tranqüilidade que emana de sua figura benévola e irretocável tem o poder de atingir tudo e todos, ungindo com a pureza de suas bem-ditas palavras aqueles que padecem sob seus cuidados.

 Que figura tocante, piedosa e reconfortante é Deus! Lendo o parágrafo acima você certamente consegue adentrar, quer seja por alguns ínfimos segundos, em uma esfera de calor e ternura, como se conseguisse atingir um local tão aprazível quanto o útero materno.

 Infelizmente, essa figura louvável pode ser resumida a um engodo secularmente esculpido a sangue e suor na cultura mundial, concebido pelo mesmo tipo de mente imaginativa que idealiza com afinco a história do próximo herói das telas dos cinemas. E como em qualquer filme, encontramos também nas religiões a dualidade entre o bem e o mal, certo e errado, puro e pecaminoso, atribuindo-se ao benévolo ser a alcunha de Deus e ao decrépito inimigo o título de Demônio.

 O que desperta minha curiosidade é o fato de que os pregadores – e aqui incluo todos de todas as religiões, pois não há exceção – necessitam mais do demônio do que de deus. Afinal, é justamente através dos pecados, das faltas aos dogmas e da inobediência aos preceitos religiosos que os novos messias mantêm o seu rebanho coeso, e o que seriam esses erros senão constatações do terrível poder subversivo do demônio?

 Certamente me irrita a quantidade de adesivos e camisetas religiosas que vislumbro todos os dias, presentes em qualquer caminho que se escolha percorrer. Invariavelmente, a mensagem contida em qualquer desses meios de propaganda é a de que “Deus está comigo”, ou que o infeliz condutor do veículo logo a frente do meu está nas “mãos de Deus”. Mas, será mesmo? Errado. Muito errado. Se alguém está segurando a mão do evangélico, ou se alguém de fato está acompanhando o senhor de cabelos grisalhos vestido com uma camiseta de dizeres religiosos, esse alguém é o Demônio, não Deus!

 É o Demônio que dita as regras do mundo religioso, e não o seu criador (afinal, se Deus criou tudo e todos, o Demônio também é produto de sua obra), pois é exatamente no Demônio que podemos encontrar tudo aquilo que mantém acesa a desprezível luz melancólica da religião: pecado, culpa, ímpeto, sexualidade; logo, tudo o que pode ser amenizado pela igreja é causado pelo Demônio. Ora, não é difícil entender: se você cria um negócio, você precisa de consumidores ávidos pelo seu produto, ou a sua empresa sucumbe. Assim é a igreja: se não houver demônio, qual será o sentido do perdão? Se o demônio não estiver ao seu lado lhe oferecendo drogas, prostitutas ou o coroinha da igreja em que você prega como você irá correr para os braços de Deus-pai-todo-poderoso, desculpando-se pelos seus pecados e implorando por clemência? Afinal, é o demônio que lhe faz sentir o desejo de ter uma relação sexual antes do casamento, e, se esse é um desejo humano, certamente só pode ser produto do diabo!

Consigo antever que os religiosos que estão correndo esse texto com os olhos já estão levantando suas cruzes e promovendo uma guerra santa contra minha pessoa, pois certamente o título de satanista já me foi atribuído apenas com a leitura do título desse artigo. Ora, por favor, compreendam que Deus e o Demônio são invenções das suas igrejas, no intuito de controlar pessoas como vocês, passíveis de domínio, e não aqueles que conseguem compreender o absurdo infindável que é a religião. O demônio é apenas outra invencionice religiosa, uma contramedida necessária, a moeda mais forte na troca do seu raciocínio pela alienação.

 Tudo aquilo que tem o poder de fazer com que uma pessoa consiga vislumbrar o próprio caminho, exercer seu poder de raciocínio e decisão ou até mesmo viver na mais pura essência humana também é considerado obra demoníaca. Nada que possa dar asas às mentes inertes dos religiosos pode ser divino, pois é justamente a falta de senso crítico e a inércia mental que mantém os religiosos dentro das religiões. Claro, todas as mazelas sociais também são obras do chifrudo, mas não é curioso que Deus, com todo seu poder e bondade, apenas assiste essa tragédia anunciada como quem assiste um leilão de animais na televisão? Não se trata de curiosidade, mas sim de estratégia política. Quanto mais os seguidores caírem nas garras do belzebu, melhor será a colheita de mentes por parte da igreja. É evidente!

 Felizmente, assim como Osho, consigo crer que tanto Deus como o Demônio estão mortos. Deus está morto não porque algum sanguinário assassino com poderes divinos cortou sua garganta, mas sim porque nada que não existe pode vir à vida, e nada que não tem vida pode morrer (colocando em linguagem cristã, podemos dizer que Deus saiu para comprar uma carteira de cigarros para apreciar sua obra fictícia após seis dias de árduo trabalho e jamais retornou ao domicílio). E se Deus, que supostamente foi o responsável pela criação de tudo que entendemos por universo, não existe, como haveria de existir o demônio, mesmo sendo ele sua mais bela e proveitosa obra?

 Deus(es) não existe(m). Demônios não existem. Mas há algo que é real, algo em que você deve acreditar piamente: em você mesmo. Você precisa tanto de Deus e do Demônio quanto um filhote de gato precisa de uma conta bancária. Sua vida é você quem faz, portanto não a deixe ser comandada por alguém que julga ser superior a você por alegar ter contato com algo que não existe! Encontre sua mente, afunde-se em seu raciocínio; dessa forma, você atingirá um local onde nenhum Deus ou Demônio poderá chegar.

 

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1 Comentário »

  1. Prezado Jorge,

    Seu texto traz nas entrelinhas a lógica histórica incutida no cerne das religiões, a qual costumo chamar de “capetalismo”. O demo, chifrudo, capeta… Seja qual for a alcunha, é o trunfo inexorável que, através das fábulas pecaminosas sagradas, fomenta o terror no ego de milhões. Não há pois nada mais poderoso em favor dos dogmas que o pecado, o medo, o domínio ideológico através da fragilidade humana coletiva, alienada e passiva. Longe desses homens duvidar do engodo dos deuses e dos demônios; só não tão longe quanto buscarem o óbvio na razão, que faz dos dogmas meros quadrinhos medievais. Deuses e demônios, aliados numa mentira secular.

    Comentário por Humberto F Lucena — 20/12/2013 @ 12:16 am | Resposta


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