Revendo a Religião

10/04/2008

Um Deus Distorcido

No dia dez de Abril de dois mil e oito, das dezessete às dezoito horas, através de um programa televisivo intitulado “Show da Fé”, respaldado pela Igreja Internacional da Graça de Deus, consegui compreender o significado para um verbo que realmente transita aleatória, porém constantemente, em qualquer pregação digna de um fiel e verdadeiro arauto cristão: o vocábulo “pecar”.

O “missionário” infiltrou direta e esmeradamente a idéia por trás da palavra nas frágeis mentes presentes: o verbo pecar, utilizado pelos copistas no livro Juízes (e em vários outros, é claro), significa “errar o alvo”. Para justificar seu uso, uma história narrada na seqüência do sermão demonstrava a recompensa obtida, em forma de apoio bélico divino, por “setecentos homens escolhidos, canhotos, os quais atiravam com a funda uma pedra em um cabelo, e não erravam” (ler Juízes 20:1-48). A tradução para “não erravam”, segundo o missionário, advém de “não pecavam (a mira)”. Certo, até então, nada fora dos conformes das regras gramaticais.

O que o missionário omitiu não foi o sentido gramatical do verbo, e sim o real significado acerca dessa história, o qual estava prontamente aceso em sua confusão de idéias (deve ser realmente complicado criar uma sinergia entre o impulso da fala ludibriante e a necessidade de conter eternamente no lado esquecido da razão o que realmente deveria ser dito). O pregador apenas falou que Deus (oh, senhor todo-poderoso e inexistente) necessita de pessoas realmente infalíveis, logo, que transcendam os limites físicos e psicológicos inerentes ao homem, barreiras essas de fato limitantes e certamente instransponíveis.

Não há muitas interpretações perante o fato. A mais sensata é que o missionário estava defendendo a materialização de um falso poder empíreo, numa (more…)

02/04/2008

Libertas Quæ Sera Tamen

Às vezes, um vazio de idéias toma por completo minha mente. Não sei se é pura falta de concentração ou se simplesmente alguns pensamentos estejam esperando o seu ponto de amadurecimento para penetrarem sutil e velozmente em meu córtex, levando-me a escrever meus artigos. Portanto, em alguns momentos, procuro fontes para um novo texto; em outros, as fontes vêm até mim.

Recentemente, recebi um comentário de um leitor pró-cristão que tirou minhas idéias de uma descabida dança incessante em meu inconsciente e colocou-as novamente em um estado de organização racional.

Meu comentarista declarou que não pertence a uma religião dominadora; pelo contrário, goza de uma liberdade suprema, respeitadora e justa.

Pois é justamente sobre liberdade que pretendo falar.

Infelizmente, não consigo tatear a liberdade em local algum. Não consiga avistá-la nem por uma fração de segundos. De algum modo, todos seguem ordens pré-estabelecidas, pois essa é a função social do ser humano. Alguns, mais receosos, atrelam às suas vidas normas e regras exageradas, porém, paradoxalmente necessárias para o correto funcionamento de seus pequenos mundos particulares. Eu não constituo exceção à regra. Minha liberdade é igualmente limitada, pois preciso cumprir horários e praticar ações que nem sempre estou disposto a exercer, porém sou ciente de que essas regras são necessárias para que minha vida não inverta radicalmente seu percurso. Ainda, é claro, tenho uma “liberdade vigiada” pela lei dos homens, pois, como qualquer outro cidadão, não posso simplesmente pôr em prática todos meus devaneios. E, de certa forma, fica confortado com o fato (até mesmo aliviado).

A liberdade plena é virtual. Existe em livros, na tela dos computadores, mas não na vida real, onde é entrecortada por medidas preventivas criadas pelos homens para o adequado convívio social (tanto que uma de suas definições no Dicionário Aurélio¹ é “[a] faculdade de praticar tudo quanto não é proibido por lei”). Isso é uma constatação, comprovada por qualquer pessoa que consiga enxergar além de seu próprio nariz.

Pergunto-me, agora, como uma pessoa que tem sua liberdade delimitada pela lei dos homens e também por uma lei celestial insólita consegue se considerar livre? Não consigo encontrar respostas para uma questão (more…)

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