Revendo a Religião

18/07/2011

A Multiplicação do Nada

Ao nos depararmos com alguma explanação alicerçada em um único e indivisível conceito ideológico, criamos uma cadeia de raciocínios lógica fundamentada no princípio da indissociabilidade: a construção racional provinda do conceito exposto deve admitir tão somente um único resultado, imutável, que de modo algum permita a criação de soluções alternativas ou parciais. A “verdade”, portanto, é uma só.

As religiões tentam seguir a premissa da verdade soberana: julgam irretocáveis seus princípios falaciosos, pregam que suas idéias são unas, indissolúveis, superiores a qualquer julgamento humano. O conceito de religião procura promover sua risível “onipotência”, pois sob o prisma religioso não há nada a retocar entre os dogmas e regras usados covardemente como escudo anti-realidade: Deus simplesmente É, a igreja simplesmente É, e nada pode ou deve ser dito contra tamanha afronta ao raciocínio lógico.

Entretanto, uma pergunta surge na mente numa velocidade vertiginosa: se as religiões são unas, se Deus é o todo de uma pluralidade indivisível, por que existem tantas igrejas com correntes “filosóficas” diferentes, ou até mesmo por que existem tantas subdivisões acondicionadas a uma mesma corrente, por assim dizer, filosófica (e aqui me refiro às Pentecostais, principalmente)? A resposta surge em velocidade talvez até superior: porque as religiões não são indivisíveis, únicas, irretocáveis ou isentas de interpretação! As religiões são fragmentos fúteis espalhados de maneira indolente com a finalidade absurda de condenar o homem a um martírio perpétuo de solidão e submissão, causando uma diminuição das características que outrora o transformavam em ser racional em um gradual crescente, e, ao contrário do que gostam de pregar, jamais com o intuito de focar na salvação do homem e de sua “pobre alma”, mas sim no sadismo, contemplando templos que outrora eram chamados de seres humanos em um estado de desespero, definhamento e subversão.

Com uma pesquisa superficial podemos constatar que membros de diferentes ramos religiosos costumam pregar que seus concorrentes fazem apenas cumprir o caminho da cobiça, relegando a figura e presença de Deus a um segundo plano, talvez como mote para a angariação de fundos, mas paradoxalmente jamais conseguem vislumbrar que o caminho que percorrem tem como destino final o mesmo de seus adversários religiosos! Religião alguma tem o foco restrito ao bem de outrem: quando há comprometimento social, há também a cobrança de dízimos; quando há campanhas de fraternidade, almas inocentes são devoradas pela pedofilia; quando saem às ruas para a confecção de tapetes enfeitados para a data de Corpus Christi, estão apenas realizando um ato simbólico de ocultação, colocando “sob os panos” todos os atos imorais que praticam em suas vidas, mas que julgam totalmente praticáveis, uma vez que a confissão e o acerto dos pagamentos com o padre (ou qualquer outro ser desprezível que prega o mal do século) amenizam seus atos deploráveis.

A multiplicação das instituições religiosas equivale totalmente à criação de novos cargos políticos: sempre que surgem, buscam apenas o provimento financeiro, enganando uma população inerte e favorecendo uma minoria desprezível e arrogante, que tem por costume praticar uma superioridade inexistente baseada tão somente em suas idéias megalomaníacas, sem qualquer forma de bonificação para a população.

Tal qual um câncer, as igrejas se espalham consumindo a boa vontade que antes habitava seus agora seguidores, sugando-lhes o bom senso, a auto-estima e a iniciativa própria, deixando como legado apenas a alienação.

Se Deus existisse, e sua palavra fosse um caminho sublime rumo ao regozijo pleno, creio que sua palavra seria também única e indivisível, tal como costumam dizer seus pregadores (e creio que aqui posso obter pleno apoio entre os religiosos). Entretanto, basta um rápido olhar sobre a sociedade decadente composta pelas diversas igrejas para verificarmos que a prática passa a uma distância imensurável do local onde descansa a teoria: cada igreja, cada ser desprezível que goza de uma superioridade inexistente prega um amontoado próprio de idéias falsas, clamando pelo seu Deus, e não pelo Deus do seu vizinho de porta, o qual por sua vez prefere guerrear por uma causa fajuta, defendendo outras palavras de um mesmo ser inexistente, ao invés de ter a decência de entender que na verdade luta por causa alguma, e que defende as mesmas idéias de seu semelhante, porém com uma interpretação ligeiramente diferente. Essa reação em cadeia perpétua engole aqueles que não possuem autonomia para enxergar o mundo com seus próprios olhos e regurgita em resposta fanáticos religiosos que buscam a guerra, a morte e a miséria, ao invés de clemência, bondade e beneficência.

Não há motivos para a existência de tantas religiões, afinal, a redundância é algo que deve ser evitado não apenas na gramática. Deveríamos multiplicar aquilo que traz benefícios à sociedade, como as vagas em leitos hospitalares, os salários dos professores, o contingente da segurança pública, os anos de detenção para homicidas, e não algo que afasta a população do poder de pensar.

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2 Comentários »

  1. Descobri seu blog numa busca na internet, mas isso é irrelevante. Suas opiniões me parecem bem fundamentadas, e, independente se eu pessoalmente concordo com elas ou não, uma das coisas que transparecem nesta postagem específica é a busca de argumentos sem se basearem em frases feitas e a crítica às religiões sem ofender pessoalmente aos que creem (criticar é uma arte). São textos assim que tem de ser melhor divulgados. Numa outra postagem anterior vi que houve um rompimento disso, e apesar de concordar muito (e cada vez mais, quanto mais vivo) que crentes são limitados em muitas coisas, penso que devemos nos policiar para não “usarmos as mesmas armas” de alguns.

    Cada vez mais tenho uma visão evolucionista da religião, que age como um vírus se apoderando de indivíduos ou da massa social que estejam com baixa imunidade intelectual e sobretudo emocional, pois mesmo os poucos religiosos que têm um grau de intelectualidade mais alto que a média podem usá-la fazendo verdadeiros “malabarismos” para justificar a crença.

    O cristianismo em especial surgiu como um sincretismo principalmente entre a religião judaica e o pensamento grego, e não deixa de ser irônico que tenha-se usado muitos elementos por exemplo da filosofia platônica, altamente racional, para a nutrição dessa “pandemia sagrada”. E como viroses altamente adaptáveis ao meio e capazes de mutações as mais diversas, talvez assim se explique porque religiões relativamente antigas como o cristianismo subsistam ainda tão bem, talvez exatamente pela sua capacidade de mudar e e de se adequar aos meios sociais vigentes.

    Comentário por J. Tadeu — 11/08/2011 @ 3:35 pm | Resposta

  2. Pois eu que sou um simples operário emigrante na Holanda desde 1964 e já velhote(87anos)digo que concordo absolutamente com o autor do artigo pois se,segundo a Igreja ensina,Deus é um Ser invisível criador de tudo o que é visível e invisível e que tem todos os seus predicados num grau infinito,não pode sentir necessidade seja do que fôr.Então porque criou o Mundo e depois Adão e duma costela dêste fez Eva?!
    Depois de os ter colocado no Paraíso Terreal proibíu-os de comerem o fruto da árvore a ciência do Bem e do Mal,o que êles não cumpriram e como tal foram expulsos do Paraíso Terreal.Ora Deus aqui portou-se como um soberano ditador caprichoso,castigador e vingativo,defeitos que não se admitem num Deus que a Igreja diz ser infinitamente perfeito.A Eva foi tentada pelo Diabo disfarçado de serpente.Ora se Deus é o único criador como ensina a Igreja,então também criou o Diabo e o Inferno?!Mas isso é a negação da sua infinita perfeição.A Igreja ensina que Deus é imutável.Ora se é imutável não pode mudar de ideias como um catavento.Então porque se arrependeu de ter criado o Mundo e os Seres que o habitam e quiz destruí-lo com um Dilúvio?!Portanto só posso conceber que foi o Homem que criou Deus à sua imagem e semelhança e a respectiva Religião segundo os seus interêsses.

    Comentário por José G.Cravinho — 22/12/2011 @ 1:41 pm | Resposta


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