Revendo a Religião

06/04/2010

Deus: um Bipolar

Filed under: Deus,igreja,religião — jorgesneto @ 4:06 pm
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“Precisa-se do deus mau tanto quanto do bom: afinal, não se deve a própria existência exatamente à tolerância, ao humanitarismo… Qual a importância de um deus que não conhecesse ira, vingança, inveja, escárnio, astúcia, atos violentos? […] Não se entenderia semelhante deus: para que ter um deus assim?” 1

Poucos são aqueles que sabem captar a verdade, mesmo que essa esteja convenientemente abscondida embaixo dos véus da ganância. Friedrich Nietzsche foi um desse poucos, pois trouxe um olhar racional, crítico, incisivo sobre a sórdida meia-verdade da igreja. Conseguiu enxergar o que outros apenas tateavam, em vão, no escuro de suas mentes: o deus paradoxal, supremo de si, o poço simultâneo de amor e ódio.

Como Nietzsche preconiza em seus escritos, deus, por essência, necessita ser ambíguo, afinal, não existe outro modo de adaptar uma criatura que pensa, chora, sente e reage como o homem às necessidades do próprio homem. O deus supremo, intocável, para ser aceito necessita ter características comuns ao ser humano, e, como cada indivíduo possui linhas de pensamento singulares, um mesmo deus precisa ser muitos, com modi operandorum adaptáveis.

O todo-poderoso não pode ser exclusivamente bom: seria fácil demais. Naquele homem pacato, tranqüilo, deus precisa impor o temor, a angústia, o apelo ao lado obscuro, no intuito de provocar um crescente sentimento de desamparo, abandono, fazendo com que a “pobre alma” recorra ao mesmo deus, entretanto buscando agora o abrigo contra tudo aquilo que lhe foi imposto de forma estratégica: o homem acaba buscando conforto no seu carrasco. Desse modo, deus e seus representantes conseguem domar o gado humano com serena tranquilidade, apenas dosando os momentos de fúria excessiva com atos de amparo e caridade.

Tal como uma marionete, o cristão é manipulado: ora puxa-se o cordão do livre-arbítrio, impedindo-lhe a ação, ora dá-se linha para a ação autodestrutiva. No final, sobram fragmentos de um ser humano, que, um a um, vão sendo colados com a mão trêmula devido ao excitamento de um deus impiedoso e cruel perante mais uma mente sepultada. Surge aí o cristão fanático, que não mais sabe fazer uso de seu raciocínio lógico, ficando totalmente entregue às garras do seu “senhor”.

Os sentimentos e ações destrutivos de deus são exponencialmente mais úteis do que aqueles que preconizam o amor e a compaixão, pois despertam o medo. Logo, uma pessoa amedrontada é facilmente manipulada, subjugada, ao passo que uma pessoa livre dificilmente deixa-se levar por atos de imposição sem ao menos saber o motivo.

Sem os atos violentos que deus preconiza, o homem seria livre para pensar, pouco se importando com a obediência das regras divinas; não havendo violação de regras, automaticamente a punição – que se apresenta como a mais simples forma de controle – inexistiria. Desse modo, o controle divino sobre seu rebanho diminuiria paulatinamente, efeito totalmente contrário ao objetivo maior do homem-invisível.

Deus necessita coexistir com ele próprio: deus é bipolar. Alterna seus momentos de euforia, assistindo de camarote o corrompimento do homem, com momentos de tristeza profunda, quando busca achar razão em seu amor traiçoeiro.

Não há maneira de seguir um deus mesquinho, volúvel. Para alguém impor respeito, admiração em outrem, necessita ser íntegro, possuir caráter imutável, e não uma mente que segue o caminho mais oportuno no momento da dificuldade. Deus é o atalho que liga a estrada da ignorância ao desfiladeiro da morte racional, visitando esporadicamente os abismos da loucura.

1 NIETZSCHE, F. W. O Anticristo: maldição contra o cristianismo. Porto Alegre: L&PM, 2009. p. 31.

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1 Comentário »

  1. Eu,um simples operário emigrante na Holanda desde 1964 e já velhote (quase 88 anos),admito em meu pensamento que haja quem creia na existência de Deus,mas não posso admitir que haja quem se atreva a definir Deus e dizer que falou com êle,como o biblico Moisés,e que dêle recebeu as Tábuas da Lei que são os Dez Mandamentos dos biblico-judaico-cristãos.O Homem é que criou Deus à sua imagem e semelhança e a respectiva Religião segundo os seus interêsses..

    Comentário por José Gonçalves Cravinho — 13/02/2012 @ 10:53 am | Resposta


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