Revendo a Religião

22/10/2009

Dos Dogmas Sobre Deus (parte 2)

A Unidade de Deus

“Não existe mais que um único Deus”

A frase supracitada fornece, em poucas palavras, um resumo rápido e de fácil compreensão acerca da manipulação dos povos, ao mesmo passo que incita a discórdia com outras fontes ideológicas, afinal, exemplificando-se, o Deus cristão não parece ser representado da mesma forma que o Deus hindu.

A unidade de Deus, como prega esse dogma, foi e sempre será uma arma de alcance ilimitado na mão dos pregadores do homem-invisível, pois não passa de um engodo que consegue “inocentemente” adentrar em qualquer sociedade contrária a tal ideia (mesmo que nem sempre amistosamente), mas que acaba tendo um efeito cruel e devastador.

Pare um momento e reflita: nos primórdios da humanidade, civilizações notáveis cobriam a superfície terrestre – povos esses que possuíam conhecimentos avançados de astronomia, matemática, geografia e várias outras ciências. O que esses povos apresentavam em comum? A resposta é simples: o politeísmo. Maias, astecas, incas, egípcios, celtas, alguns povos ameríndios, todas politeístas.

O instinto humano de atribuir significados incríveis para o desconhecido não é uma novidade, pois é esse o alicerce do politeísmo. A chuva, os rios, as marés, a lua, tudo era compreendido como algum incomum, mágico, supersticioso, gerando a formação de inúmeros deuses, um para cada evento fantástico, com inúmeros seguidores.

Agora imagine tentar manipular uma população onde cada mente tem seu próprio caminho – mesmo que cego e curto. Seria difícil, creio eu. Se o não cumprimento de uma determinada ação, por parte de um membro da sociedade, despertasse a ira de um Deus, mas o culpado não fosse temente a essa mesma entidade superior, o que aconteceria com a punição para tal afronta? A punição seria meramente hipotética, pois o culpado em questão poderia pedir “asilo religioso” ao “seu” Deus. Um povo tão divergente dificilmente poderia ser engabelado de forma direta e tranquila, pois o governante necessitaria ter o domínio de não somente uma corrente ideológica, mas sim de várias, esfarelando, desse modo, a homogeneidade e a harmonia do povo.

A propósito, como, então, que o colonizador cristão conseguiu conquistar (entenda-se destruir) povos tão paradoxalmente brilhantes? A resposta está no início desse mesmo artigo: com a introdução forçada da cultura monoteísta cristã e com o princípio da unidade de Deus. Para “domesticar” um povo, basta privá-lo de sua cultura, subjugá-lo, introduzir forçadamente princípios até então inéditos e pronto: eis a receita para aglutinar mentes que gozavam de um resquício de liberdade de expressão. Uma vez que mentes divergentes passam a convergir rumo ao mesmo abismo lógico passa a estar instituído o cristianismo!

Sou levado a crer que o politeísmo, mesmo que de um modo avesso e não-específico, foi um dos fatores de sucesso das antigas civilizações, antes da chegada dos colonizadores. Mentes que não são bitoladas, que não seguem um caminho único, tem maior chance de obter sucesso em seus propósitos. Talvez se o ignorante cristão colonizador não tivesse reduzido a migalhas a cultura desses povos nossos conhecimentos científicos poderiam estar indubitavelmente mais avançados do que se encontram hoje.

Impondo-se a unidade de Deus extingui-se, automaticamente, qualquer forma de manifestação individual. Não há mais vários deuses para se apelar; tudo agora se encontra nas mãos de um único e perverso homem-invisível, que tem como metas a regressão e o domínio das mentes outrora sadias e aptas a exercer seu dom de raciocínio lógico.

Aos olhos gananciosos da igreja não pode existir, realmente, mais do que um Deus, pois a quantidade de deuses é diretamente proporcional a capacidade de o indivíduo da sociedade questionar os porquês da religião. E os questionamentos, invariavelmente, levam à perda de poder. A igreja não gostaria de perder seu poder, gostaria? Não, estou certo que não.

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2 Comentários »

  1. considerações:
    Incrível como apenas o Deus da Bíblia é atacado;
    Íncrivel como ninguém consegue ficar indiferente à Bíblia;
    Íncrivel como ninguém tenta desmascarar Buda, Maomé ou qualquer outro, mas sempre Jesus Cristo;
    Íncrivel como atacam somente a Deus e nunca a Satanás (porque será?)

    Se no íntimo do seu coração voce quiser conhecer a Deus, basta chamar por Ele, então se revelará a voce!

    Comentário por Adilson — 16/03/2010 @ 11:18 pm | Responder

    • Caro Adilson,

      Um fator decisivo para o meu afastamento do embuste religioso foi a constatação de notáveis contradições: não há maneira de seguir alguém ou algo que não consegue manter uma ideologia retilínea, sem curvas, e a religião é apenas um caminho torto, assim como a bíblia!
      Você diz que “apenas o Deus da Bíblia” é atacado. Perdoe-me, mas Deus não deveria ser uma figura homogênea, íntegra, indivisível? A meu ver, deveria! Mas o que de fato acontece é que homens diferentes criam cenários diferentes para um mesmo circo, ou seja, ‘a embalagem é diferente, mas o conteúdo é o mesmo’. Deus é uma criação do homem, tal como a religião, sendo que as diferenças existem porque o homem não é capaz de congregar com os próximos, na tentativa de ao menos criar uma estória mais crível. Daí surgem os vários deuses, que na verdade são um ente só, porém ilustrados de maneiras diferentes.

      Ninguém consegue ficar indiferente à bíblia, isso é fato. Nós, ateus, não ficamos indiferentes porque achamos repugnante a ideia de obedecer um livro que não tem começo nem fim, um apunhado de estórias cíclicas incoerentes. Não consigo ficar indiferente, pois vejo que milhões de pessoas, as quais poderiam estar libertas intelectualmente, seguem esse livro estúpido, fruto da imaginação de dezenas de escritores desocupados e desonestos!

      Buda, Maomé, Cristo: qual a diferença? São nomes diferentes para um mesmo embuste, ferramentas espúrias de condenação racional, homens comuns que souberam domar as palavras e subjugar seus semelhantes! Falo de Cristo, mas quero deixar aqui escrito que tenho intenção de que minhas palavras voem mais longe, apenas adaptando-se ao credo religioso.

      Não entendi sua colocação: você quis insinuar que nós, ateus, temos medo do seu “Satanás” ou que somos mancomunados com o ser imaginário perverso (como se deus fosse uma figura bondosa)? Adilson, prepare-se para a revelação, mas o seu “Satanás” existe, e, de fato, é algo a se temer. Satanás está na indecência do padre que alicia crianças, na amaurose do padre que nega o Holocausto, na ignorância da igreja que veta o uso de preservativos, na fome de dinheiro do pastor evangélico que seduz o pobre ignorante a entregar aquilo que não tem, no cristão que vai à missa no domingo de manhã e espanca a mulher no domingo à noite! O satanás que você deve temer está aqui, na terra, dentro de todas as mentes: alguns o liberam, outros não.

      Adilson, se no íntimo você quiser ser uma pessoa em sua mais pura essência, procure no íntimo do seu cérebro, seu raciocínio ainda estará lá!

      Obrigado pelo comentário!

      Comentário por jorgesneto — 26/03/2010 @ 12:06 am | Responder


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