Revendo a Religião

01/07/2008

O Nascer de uma Religião

Escrevi, há tempos, sobre quão antigo é o mal gerado pelo nascimento de uma religião, composta basicamente por um punhado de premissas inexistentes, que corroem aos poucos os diminutos traços de razão que o ser humano conseguiu adquirir em sua longa trajetória de evolução.

Mas, como será que, efetivamente, nasce uma religião?

Ao contrário do que você pode imaginar, não existe a necessidade de uma multidão de devotos, ou de uma horda de pregadores embriagados pelo poder. Há apenas um requisito básico para que uma nova ordem religiosa – um calabouço que trancafia em suas entranhas o lado humano do ser – surja tão repentinamente quanto a rápida chuva de verão: a ignorância humana.

Por comodidade, preguiça e falta de discernimento, o homem consegue atribuir significados estapafúrdios para coisas que, se fossem processadas através da lógica racional, poderiam ser prontamente explicadas, ou ao menos suficientemente compreendidas. Isso é tão verdade que, nos primórdios, as civilizações eram evidentemente politeístas, uma vez que atribuíam aos diversos deuses fenômenos naturais posteriormente detalhados por mentes abertas aos sinais da própria natureza, e não trancafiadas em um mundo celestial habitado por criaturas sádicas e impiedosas.

Deparando-se com aquilo que não conhece, o homem simplesmente atribui-lhe um significado divino, já que seu comodismo impede que as enferrujadas engrenagens de seu cérebro ainda primitivo trabalhem em ritmo constante e eficiente. Sempre que o tolo homem esbarra no desconhecido, o poder do todo-poderoso ente invisível cresce absurdamente, fortalecendo a crença que ele, o próprio homem, criou e moldou com sua arrogância e seu desconhecimento.

A religião, então, nasce da ignorância. Mas não é somente a falta de conhecimento que torna a religião imortal, inatingível: aí entram os aproveitadores, aqueles que possuem intelecto superior aos néscios fiéis religiosos, e que sabem como moldar legiões de seguidores de acordo com seus propósitos.

Assim nascem os pregadores.

Perceba que os pregadores não precisam exaurir seus pensamentos buscando meios de criar uma força suprema que exorta a submissão dos povos. Não, isso não é necessário, uma vez que o homem submisso já realizou todo esse estafante trabalho através do distanciamento das explicações lógicas e da aproximação do mundo de faz-de-conta. Resta ao pregador apenas administrar esse poder inventado pelo humano (e por ele venerado), usando-o como fonte de realização de seus próprios ideais megalomaníacos.

Como é triste ver alguém abdicar de sua independência psicológica para favorecer uma estória desprovida de nexo, agarrando palavras rasas de pregadores inescrupulosos como se fossem essas a única salvação de suas vidas! Nada é mais deprimente do que assistir a decadência do homem, abdicando de tudo daquilo que o faz merecedor do título de racional em prol de uma vida tão vazia quanto as palavras em que crê piamente.

Vários religiosos pregam que “é preferível acreditar em Deus e estar garantido no Apocalipse a abdicá-lo e sofrer as consequências no dia do juízo final”. Mais uma prova da comodidade dos mesmos! Na realidade, há uma preferência pela informação já digerida, pela facilidade de aderir ao pensamento mais divulgado e pela necessidade de “navegar a favor da correnteza”. Contraditoriamente, diz-se que a preguiça é um dos sete pecados capitais…

Esse medo infantil de um eventual fim do mundo é uma poderosa arma usada pelas igrejas. Já que o homem criou a religião, Deus e todos os seus complementos pelo simples fato de temer o desconhecido, nada mais fácil que reutilizar esse mesmo medo para manter esse ser “racional” em seu alto grau de submissão intelectual.

Ainda hoje, há cristãos que enxergam Deus em tudo: nas tragédias e nas alegrias, nas conquistas e nas derrotas, nos êxitos e nos fracassos, nos acasos e nas coincidências, no “céu” e no “inferno”, na vida e na morte. Essas pessoas estão eternamente maculadas pela ignorância e, provavelmente, irão morrer assim. Mas à medida que os fatos vão sendo esclarecidos, os mistérios desvendados, os mitos destruídos e as lendas enterradas, Deus vai sendo diminuído. Haverá, então, um momento em que absolutamente nada poderá ser atribuído a Deus.

Seria essa a morte da religião?

Infelizmente, sempre haverá algum resquício de medo ou de ignorância em algum homem, e esse aparentemente inexpressivo ser conseguirá perpetuar a mesma velha e desgastada estória, tornando a desprezível religião imortal.

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6 Comentários »

  1. Eu imagino um mundo assim.Onde o progresso por meio de uma evolução intelectual constante se estabeleça na sociedade, e no lugar das aulas de religião, mais ciência.No lugar de programas sensacionalistas e religiogos, consagradas séries como Cosmos, Poeira das Estrelas e programas sobre ciência.
    Sim, ateus têm esperança.

    Obrigada pelo acréscimo de conhecimento.

    Comentário por PsychoGirl — 26/08/2008 @ 2:03 am | Resposta

  2. O Mais Terrível Mêdo e Sentimento do Ser Humano.

    Recue. Puxe o fôlego para encarar. Este é o texto do ultimato; o fecho do desenlace. O documento de decisão da consciência. O ser humano se encontrará agora diante de seu mais temível, e jamais sondado, MÊDO, que está dentro, frio, calado; mas que esmagaça suas entrâncias. Porque esse mêdo soma um sentimento quase intraduzível que reúne a um só tempo: o sentir-se sozinho, impotente, sem absolutamente o que possa referenciá-lo. E esse sentimento está recôndito no mais cruel fato, no mais duro pensamento; que só em se insinuar perto da consciência estremece um calafrio de pavor, e o ser humano se esconde e faz tudo para não ter de vê-lo; porque ele agita até toda sua identidade, e ele prefere a exclusão do pensar do que deparar com tal embate psicológico … porque não é dor … é o encontro com o não ser … de não ser encontrado como existência, de não ver referência que dê sutento ao seu existir.

    Existe algo estranho numa jornada de vida, não há como saber quanto está alinhavado cada nó do bordado onde cada um de nós toma e retoma sua linha de história; e é esse esquivo fenômeno que fêz neste exato momento essas linhas que você lê.

    Talvez não haja neste instante em toda a extensão deste globo alguém com uma história tão absolutamente posta como traço desde a natura tenra até ao alcance de ter o peso de deflagar um juízo sobre uma nação, sobre uma civilização, sobre uma espécie.

    Os olhos humanos vêem nitidamente o cirandar dos rumos, o voleio dos ventos, tomando o volume do assombro repentino, e vê o correr espavorido e galopante do desgraçado arrogante e do covarde a encarar o relâmpago estampado diante de seu lívido olhar sem mais tempo algum diante de seu montante de estupidez e inútil futilidade.

    Nos dias idos nossos ancestrais se apavoravam com o temor de não ter onde pisar, o que o cobrir, o que o sustentar. E ao pensar que a Terra seria um platô, um “plano” sem fim, só lhes cabia ver o “em cima” como céu; e imaginar que quando o chão se revolvia debaixo de seus pés, que lá em cima poderia estar a segurança. “O que sou?” … “Como poderei assegurar minha vida?”. Esse tormento psicológico terá se insinuado antes mesmo de qualquer um de nós ter tido a conquista do falar, ou, do claro pensamento expresso no falar.

    O relâmpago riscava assombrosamente no céu, a Terra se enfurecia abrindo chanfros enormes nos solos que pareciam tão calmos e seguros. “Onde estou?” …

    E foram-se os tempos … E uns rumaram pros confins do mar e não voltaram; “Caíram num abismo” …
    Uma nova inferência surgia; “O que há mais que não sabemos” …

    Mêdo. “Eu posso falar, e pergunto, e nós nos perguntamos”; “Que segurança há pra nós nesse solo, que abruptamente nos surpreende? “E vemos catástrofes e fúrias de fogo e água e gêlo” …

    Assim nossos genes em nossos pais se impregnavam de impressões de cuidados e insegurança. Tínhamos que procurar amainar nossa jornada de vida. E nós nos arrumávamos socialmente e começávamos a montar nossas casas e a ter os mesmos sentimentos de tê-la em segurança como os que tínhamos em esperança dum amainar de TEMPERAMENTO do ambiente (às vezes repentinamente hostil) que nos inquietava.

    Queríamos o conforto psíquico do sossêgo. E inventamos um “regente” que se comiserasse de nosso temor e no qual pudéssemos aplacar nosso receio de corte de vida sempre iminente. E inventamos nossas supertições. E simbolizamos nosso Mẽdo. E criamos um “deus” terrível. Totalmente associado ao nosso sofrimento e nossas frustrações e esperanças. E as inferências se propagaram e tornaram-se crenças. Começamos a dotar nossas sociedades de rituais de consôlo, e víamos que era bom que fosse assim. Éramos tribais. Rudes. Infantes como seres vivos; inflamados de violentos temores e sentimentos.

    Quando alcançamos o estágio da polis, das cidades, à medida que rompíamos o cordão da rudeza selvática e nômade também já deixáramos a crueza da caça aberta e retínhamos em controle o que domesticávamos e o que comeríamos. Aplacávamos aos poucos nosso maior mêdo; mas também já não o discutíamos, e o perdíamos no nosso subconsciente. E nossos símbolos tornavam-se severamente cruéis. Descobríamos que por eles então podíamos escravizar nossos próprios semelhantes; e torná-los como reses, como bichos amedrontados. Já não endeusávamos nossos símbolos para protegermo-nos de nossos receios e pressentimentos; criáramos a mentira acintosa, usurpadora de todos os direitos de nossa liberdade civil: Inventáramos a Religião. Uma pantomima de efeito civil catastrófico, tão mais daninho à sociedade do que todas as catástrofes naturais.

    Hoje temos os políticos escorados em um auge do embuste dessa pantomima; ávidos por nos manterem cegados; cuidando sempre do domínio de nosso estado civil escravo (fartamente açulado pelas frases insanas dos manuais de embustes); mas de maneira nenhuma cuidando da melhoria de nossa sociedade. Todos os desenvolvimentos genuínos emperram com entraves estapafúrdios e venerados pelo açulamento de nossa própria escravidão psicológica. Sucumbimos geração após geração, degenerando-nos como espécie, enfeiando-nos como seres, e já comprometendo gravemente a Terra com nossa própria invencionice, que se transformou numa armadilha psíquica de alto dano civil.

    O Dossiê Haddammann Parte 6

    Comentário por Haddammann — 05/02/2009 @ 4:55 pm | Resposta

  3. ( que Deus te dê a compreensão e Jesus me permita que se começares a ler vás até o fim em nome de Jesus!)

    é engraçado como os ateus tem uma raiva, uma revolta dentro de si…
    e o mais engraçado ainda é que criticam o “Deus da igreja católica”, mas os outros deuses aceitam tranquilamente…
    se for pra eu virar ateu e ser como vcs prefiro crer em Deus!
    até parece que vcs fazem isso para “tirar as pessoas da ignorância”, como dizem, nem vcs sabem pq criticam tanto.
    Acreditam em tantas coisas q a ciência diz, “pq existem provas”, provas q vcs nunca viram d perto, como Deus, qm sabe a ciência não tenha inventado tudo isso meus queridos…
    Pensam que a igreja católica criou Deus pra ganhar dinheiro?
    por favor sejam mais espertos, qm quer dinheiro quer ter como gastá-lo, vc acha q os padres, papas, bispos, seja lá quem está envolvido nisto, tem como usar dinheiro se estão COMPLETAMENTE envolvidos na Igreja? e mesmo se saissem dela não teriam como gastar, pq aí não teriam dinheiro, como vcs pensam q eles tem…

    se não crês em Deus não t importarias se eu fizesse uma oração né?

    Q vc aonde está agora receba a SHEKINAH de Deus e toda a sua vida seja transformada em nome de Jesus, que todas as trevas da ignorância, do ateismo, do liberalismo sejam dissipadas em nome de Jesus, que o sopro do Espírito Santo te tome por inteiro agora, jogando pra fora tudo que é sujeira, medíocridade, mentiras implantadas e TE LIBERTE em nome de Jesus, que o Espírito Santo te faça sentir a presença de Deus intensa em sua vida, preenchendo todos os vazios, perdoando todos os pecados cometidos até agora, que tu voltes ao caminho do Senhor e não tornes a desviar, que o teu corpo, tua boca, tuas mãos, teus olhos, sejam instrumento e templos de Deus em nome de Jesus. Amém.
    tem alguém q t ama e no fundo vc já sabe qm é!

    ( que tudo isto que eu tenha dito não seja para propagar o ateismo por outra pessoas e nem motivo para blasfemar Deus!que todos aqueles que lerem se convertam! e que nada, nem ninguém, tirando Deus, consiga ter poder sobre minha vida e que este recado não consiga ser apagado em nome de Jesus!)

    Comentário por Camila — 03/11/2009 @ 5:21 pm | Resposta

  4. Cara Camila;

    Inicialmente quero dizer que você não precisa recorrer ao seu homem-invisível para que eu leia o seu comentário: se eu não lesse nada sobre religião, eu seria apenas mais um cego, assim como você, que simplesmente deglute as ideias, sem antes apreciar o seu sabor.
    Nós, ateus, não temos raiva: temos FOME! Fome de conhecimento, aprendizado, cultura! Queremos apenas compreender os porquês, e ao mesmo tempo, queremos que aqueles que não pensam por si também adentrem no mundo do pensamento lógico e racional. Não cremos em Deus algum, afinal, todos eles tem uma mesma origem, situada simplesmente em lugar nenhum, pois o que não existe não pode ter começo, meio e fim. Acabo comentando mais sobre o deus católico pelo fato de o Brasil ser ainda um país de maioria católica, mas quero que todos saibam que meus comentários se estendem a todos os deuses possíveis e imagináveis (aliás, a imaginação na religião é tudo). Desculpe-me, realmente, se não me fiz entender.
    Criticamos as religiões porque sabemos que as mesmas não passam de embustes, engodos, apunhados de besteiras imensuráveis. Claro, gostaríamos que mais pessoas aderissem ao nosso ideal, pois desse modo saberíamos que a humanidade realmente teria algo a se prender de verdade, preocupando-se com fatos, não especulações.
    Cremos na ciência porque a ciência se embasa em FATOS, constatações, resumos da verdade, e não em contos provindos de mentes muito férteis.
    Realmente a igreja católica não inventou Deus somente pelo dinheiro. Vale lembrar que existe uma coisa que consegue ser maior do que o poder aquisitivo: é o poder de INFLUÊNCIA. Porém, para se obter influência, tornar-se um referencial em um determinado assunto, o dinheiro passa a assumir notável importância. Entende o motivo da necessidade de angariar fundos agora? Espero que entenda, e que desse modo consiga manter seu dinheiro ganho com seu árduo trabalho dentro de sua carteira, e não dentro das “casas” de Deus.
    Fique à vontade para fazer suas orações, afinal, nunca impedi ninguém de defender seus ideais em meu blog. Só não espere que um aglomerado desconexo de vocábulos consiga exercer algum poder de influência sobre minha mente, do mesmo modo que tenho absoluta certeza que minhas ideias jamais serão aceitas pelo seu cérebro restrito – no sentido de pensamento racional, nunca emocional ou de inteligência efetiva.
    Não há necessidade de você implorar ao seu deus para que seu comentário não seja apagado. Não tenho o costume de esconder nada em meu blog, publico todos os comentários recebidos, afinal, não há o que temer.
    Agora faço-lhe uma pergunta: será que a Igreja sempre adotou o mesmo princípio? Será que a igreja sempre deixou seus escritos abertos ao público? Reflita sobre isso, e quando tiver uma resposta plausível, por favor, fique à vontade para responder nesse mesmo espaço.
    Obrigado pelo comentário.

    Comentário por jorgesneto — 03/11/2009 @ 9:03 pm | Resposta

  5. Com toda convicção, o dia em que o Homem enxergar apenas a realidade da vida, será o começo de uma nova Era, em que o amor e o respeito ao próximo serão difundidos em beneficio de todos e as correntes das religiões se partiraõ de uma forma definitiva.Meu pai que é um de meus maiores exemplos nunca foi religioso e sempre questionou muitas coisas e eu vi que ele tem razão, e fico feliz também por meus tres filhos terem chegado a essa conclusão sem uma palavra de mi direcionada, viram com seus próprios argumentos e conclusões,mostro apenas a eles os valores éticos e racionasi da vida.Estou muito contente com todos os artigos, parabens!!

    Comentário por Marcus — 03/05/2010 @ 11:41 pm | Resposta

    • Caro Marcus;

      A vida é o momento, o agora, não o que se espera alcançar num fantasioso universo post mortem. Fico feliz ao ver que compartilhamos o mesmo ponto de vista, afinal, deve-se viver a vida enquanto ela ainda não virou uma página desgastada no livro da humanidade, já que nossa existência é tão efêmera quanto as estações do ano.
      Você tem sorte em ter um pai assim, um homem livre, desapegado de valores que na verdade mantem o homem preso à ignorância, e também dou-lhe os parabéns por ter conseguido criar filhos que pensam com a própria mente, ao contrário dos religiosos, que só conseguem manifestar ideias coletivamente. Fico realmente feliz ao ler que você ensina aos seus filhos os princípios básicos da vida, certamente serão grandes pessoas.
      Agradeço o apoio.
      Fique sempre à vontade para visitar o blog e comentar sempre que julgar necessário.

      Comentário por jorgesneto — 04/05/2010 @ 9:28 pm | Resposta


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