Revendo a Religião

02/04/2008

Libertas Quæ Sera Tamen

Às vezes, um vazio de idéias toma por completo minha mente. Não sei se é pura falta de concentração ou se simplesmente alguns pensamentos estejam esperando o seu ponto de amadurecimento para penetrarem sutil e velozmente em meu córtex, levando-me a escrever meus artigos. Portanto, em alguns momentos, procuro fontes para um novo texto; em outros, as fontes vêm até mim.

Recentemente, recebi um comentário de um leitor pró-cristão que tirou minhas idéias de uma descabida dança incessante em meu inconsciente e colocou-as novamente em um estado de organização racional.

Meu comentarista declarou que não pertence a uma religião dominadora; pelo contrário, goza de uma liberdade suprema, respeitadora e justa.

Pois é justamente sobre liberdade que pretendo falar.

Infelizmente, não consigo tatear a liberdade em local algum. Não consiga avistá-la nem por uma fração de segundos. De algum modo, todos seguem ordens pré-estabelecidas, pois essa é a função social do ser humano. Alguns, mais receosos, atrelam às suas vidas normas e regras exageradas, porém, paradoxalmente necessárias para o correto funcionamento de seus pequenos mundos particulares. Eu não constituo exceção à regra. Minha liberdade é igualmente limitada, pois preciso cumprir horários e praticar ações que nem sempre estou disposto a exercer, porém sou ciente de que essas regras são necessárias para que minha vida não inverta radicalmente seu percurso. Ainda, é claro, tenho uma “liberdade vigiada” pela lei dos homens, pois, como qualquer outro cidadão, não posso simplesmente pôr em prática todos meus devaneios. E, de certa forma, fica confortado com o fato (até mesmo aliviado).

A liberdade plena é virtual. Existe em livros, na tela dos computadores, mas não na vida real, onde é entrecortada por medidas preventivas criadas pelos homens para o adequado convívio social (tanto que uma de suas definições no Dicionário Aurélio¹ é “[a] faculdade de praticar tudo quanto não é proibido por lei”). Isso é uma constatação, comprovada por qualquer pessoa que consiga enxergar além de seu próprio nariz.

Pergunto-me, agora, como uma pessoa que tem sua liberdade delimitada pela lei dos homens e também por uma lei celestial insólita consegue se considerar livre? Não consigo encontrar respostas para uma questão que simplesmente padece perante sua incompreensível natureza argumentativa.

Outra definição contida no mesmo dicionário anteriormente citado para o vocábulo “liberdade” é “[a] faculdade de cada um se decidir ou agir segundo a própria determinação”.

Poderia encerrar minha discussão somente com essa oração, pois qualquer pessoa dotada da capacidade de interpretar um texto conseguiria extrair o real significado dessa definição: um indivíduo deve agir segundo seus próprios ideais, e não conforme orientações estapafúrdias de um ser imaginário, as quais são miraculosamente interpretadas e repassadas por charlatões escondidos atrás de engodos repugnantes.

Um religioso é tão livre quanto um pássaro engaiolado. Porém, o religioso é um pássaro com asas quebradas, que depende única e exclusivamente da intervenção de outrem para que suas necessidades sejam realizadas, transformando-se em um animal inerte, controlado por mentes persuasivas, que sabem como traçar uma rota de mentiras e enganações para a eterna manipulação desses pobres seres.

Não há liberdade na religião. Alguém que deixa regras criadas por pessoas inescrupulosas (sinto desapontar os cristãos, mas as leis divinas foram criadas por homens, e não por um ser imaginário) assumirem o comando de sua própria vida não pode ser considerado liberto, mas sim submisso.

Os fiéis vivem dentro de um cárcere auto-infligido, porém o estúpido orgulho religioso faz com que os impulsos elétricos que correm pelos seus nervos interrompam o curso, ou seja, eles enxergam a situação, convivem com ela diariamente, mas não conseguem compreendê-la.

Onde está a liberdade para aqueles que pretendem ter relações sexuais antes do casamento? E para aqueles que zelam por seus corpos e decidem utilizar algum método anticoncepcional de barreira, como a camisinha? Cadê a própria liberdade religiosa, onde cada um pode escolher abertamente o seu credo e viver em harmonia com aqueles que divergem de sua escolha? Não consigo vê-la em nenhuma dessas situações, você consegue?

A religião não é pregada através de escolhas, mas sim de imposições, que acabam agregando um contingente gigantesco de pessoas que crêem seguir o caminho correto, incontestável, milagroso, perfeito, rumo ao seu Deus imaterial, bondoso e infalível.

Essas são as pessoas que realmente necessitam de liberdade, mesmo que tardia.

 

 

 

¹FERREIRA, A. B. H. Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. 3. ed. Curitiba: Positivo, 2004.

 

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1 Comentário »

  1. A respeito do cárcere auto-infligido, é importante lembrar a grande influencia da lavagem cerebral iniciada pelos próprios familiares do crente.

    Comentário por Tyrannosaurus — 09/04/2008 @ 1:22 pm | Resposta


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