Revendo a Religião

23/03/2008

O Preço da Morte

Nossa cultura nada mais é do que uma coletânea de informações oriundas de diversos povos e mentes, formulada através de infinitas combinações de idéias, as quais acabam sendo incorporadas como algo banal e corriqueiro, porém de valor inestimável e presença constante. Vários hábitos que hoje possuímos fixam suas raízes num passado remoto, como as danças, as comidas, os credos e as superstições.

Algumas situações enfrentadas no mundo hodierno possuem hoje um caráter místico exagerado em conseqüência de anos de transformações (e imposições) ocorridas em mentes despreparadas, constituites de sociedades que foram adaptando outras crenças e acatando novas correntes filosóficas, para, por fim, juntar tudo num mesmo palanque ideológico, idolatrado por muitos e discutido por poucos. A morte, por exemplo, é ainda considerada um tabu, uma vez que não vislumbro ninguém sentado em uma mesa de bar com os amigos para discutir a morte do vizinho: o falecimento é encarado como algo supremo, indiscutível, impassível de opiniões; um assunto impraticável, porém inquietante.

Por que não discutimos a morte? É uma questão difícil, porém tentarei responder de forma simplória, contudo, contundente: porque as religiões não querem que a morte seja discutida. O falecimento é a ponte imaginária que conecta um indivíduo comum a um ser celestial, de gritante bondade e incontestável inteligência (espiritual ou funcional). Se a morte fosse assunto de discussões, essa ponte imaginária simplesmente ruiria.

Qual é, então a desculpa utilizada por qualquer pregador quando algum indivíduo falece, independente de causa? Os sermões praticados por qualquer pregador religioso possuem um conteúdo parecido com este:

“Ora, assim quis o nosso senhor. Certamente, no céu, pessoas boas também são necessárias. Lá, poderão gozar do privilégio de sentarem próximas ao criador, assistindo de camarote ao seu triunfante governo”.

Alguém morre porque Deus assim quis, e ponto final. Ninguém morre de câncer, tuberculose, pneumonia, acidente de trânsito, infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral ou cirrose hepática. Essas patologias nada mais são do que um castigo divino, um bilhete de ida para o mundo dos céus, onde um Deus “piedoso” aguarda de braços abertos, a não ser, é claro, que você tenha que fazer um escala no purgatório (e, provavelmente, você não escapará dessa visita).

A morte é um fato, a única certeza absoluta na vida de qualquer indivíduo. Vivo hoje sabendo que um dia servirei de banquete para o meu próprio corpo. É uma realidade chocante, mas ainda sim é verdade.

Para amenizar a dor da perda, ou mesmo para um último e inesquecível adeus, a maioria esmagadora da população encontra nos funerais uma forma de prestar uma última homenagem àquele que deixa os vivos, fornecendo uma bizarra festa de recepção para o falecido junto a sua nova e final moradia. O enterro é um ritual funesto, mas, pela sua própria incorporação na cultura, já pertence à sociedade, constituindo uma espécie de direito individual. Mesmo que por brincadeira, sempre citamos como almejamos o nosso próprio funeral, talvez devido a um sentimento mórbido inerente ao ser humano ou até mesmo pela influência da cultura em que vivemos, mas todos possuímos na mente a imagem grotesca de parentes velando um corpo desprovido de vida, que é então – dando continuidade a seqüência de fatos lúgubres – enterrado em um local que abriga incontáveis vidas interrompidas, denominado cemitério.

Não consigo imaginar algum evento mais traumatizante, chocante e até mesmo surreal do que esse. O desespero estampa os rostos de amigos e familiares, tornando esse um momento ímpar, dolorosamente inesquecível. Nada pode ser mais revoltante do que a perda de um ente querido.

Nada mesmo?

Infelizmente, há algo mais revoltante do que a perda de um ente. É o descaso com o ocorrido, seguido pela transformação de um enterro em um comércio absurdamente lucrativo e inumano. Não, não estou falando dos agentes funerários. Estou falando das igrejas.

Você pode achar que não possuo argumentos plausíveis para defender essa idéia. Mas, infelizmente, possuo.

Basta dizer que a Igreja Luterana do município catarinense de Gaspar ousou requerer a quantia estapafúrdia de R$ 10.000,00 (dez mil reais) para que um pobre indivíduo pudesse ser enterrado, como “manda a lei”. O valor seria referente aos dízimos não pagos pela família do falecido, durante anos. Ora, percebo aqui uma igreja esquecendo os seus princípios primordiais! Uma pessoa perde o direito de ser enterrado, de habitar a sua última morada, porque a igreja não autoriza o “procedimento” devido a uma dívida monetária!

Não consigo construir outra idéia, exceto a de que uma pessoa deixa de ser merecedora dos seus “direitos religiosos” se algum estorvo monetário aparece no caminho entre o religioso e a igreja. Uma máscara enorme é sustentada pelos pregadores, máscara essa que encobre monstros e faz com que religiosos aproximem-se das igrejas, porém, no momento de maior fragilidade do devoto, essa máscara cai e simplesmente deixa transparecer a verdadeira face das igrejas: o apetite voraz pelo dinheiro. Uma pessoa fragilizada, enfraquecida psicológica e fisicamente, acaba acatando as premissas dos pregadores desumanos, sendo assim, as dívidas acabam sendo pagas, e o saldo bancário das Igrejas continua subindo como um balão à deriva no ar.

No caso supracitado, a quantia inexplicável não foi paga. A solução adotada pela família luterana foi a convocação de um padre católico para a celebração da última missa e a finalização do processo fúnebre.

Obviamente, isso também não foi gratuito.

Aqui há mais uma constatação da falta de escrúpulos dos membros das igrejas: o padre católico, aproveitando o momento de instabilidade emocional gerado pela recente tragédia, converteu o falecido ao catolicismo (buscando, indiretamente, a adesão de novos cristãos, comovidos pela “benevolência” do sacerdote) e, obviamente, cobrou um valor aproximado de R$ 600,00 (seiscentos reais) referente aos “rituais sagrados”.

Infelizmente, um seguidor religioso só pode morrer se as suas “dívidas” com a igreja estiverem em dia. Engraçado, pensei que Jesus Cristo era um homem simples, desprovido de valores materiais, que sempre pregou a satisfação das pessoas, sem cobrar nada em troca. Talvez minha percepção dessa estória tenha sido ligeiramente errônea, ou talvez os seguidores desse ser imaginário não liguem para os ensinamentos de seu mestre. São suposições, mas a verdade suprema se consiste no fato de as igrejas nada mais serem do que entidades comerciais, desprovidas de qualquer senso ético.

A função de uma entidade comercial é criar produtos e serviços, estipulando valores apropriados e competitivos.

Alguns preços, no entanto, são impossíveis de serem pagos.

Anúncios

Deixe um comentário »

Nenhum comentário ainda.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: