Revendo a Religião

28/01/2008

Revendo os Mandamentos: 3ª Parte

7. Não furtar (nem injustamente reter ou danificar os bens do próximo).

Creio que se o homem-invisível realmente existisse e desse o “ar de sua graça” nos dias hodiernos, no intuito de recompor os seus mandamentos, tendo como auxílio palavras e idéias dos pregadores atuais (que se vangloriam de seu alto poder de persuasão perante o público), esse mandamento seria certamente modificado, ou até mesmo banido.

Claro, qual pessoa agiria contra o próprio patrimônio deliberadamente? Nenhuma, e os pregadores certamente não constituem uma exceção à regra. Usando os seus “conhecimentos religiosos”, os sanguessugas divinos ajudariam o homem-invisível a reescrever as suas leis pífias, de modo que o sétimo mandamento seria prontamente adaptado, passando a adotar um conteúdo semelhante a este:

“Não furtar (mas você, seguidor e procurador de Deus, poderá anexar todas as formas de riquezas imagináveis, tirando dinheiro, casas, carros, terrenos e qualquer outro produto com valor comercial de seus legítimos donos, desde que você tenha a aptidão divina de ludibriar os mais ignorantes e o dom de impor a palavra aos mentalmente desfavorecidos. Sendo assim, nada do que você fará será indigno ou injusto, pois é pelo mando do seu senhor que você estará fazendo tal ato)”.

Desculpem-me, acho que essa nova pregação acabaria tornando-se muito extensa, tendo-se como padrão o conteúdo dos demais mandamentos. Então, resumidamente, o novo integrante do decálogo tornar-se-ia algo parecido com “Não furtar (exceto para engordar a sua conta bancária abençoadas pelo todo-poderoso)”. Infelizmente, o novo parágrafo da lei divina iria resultar em algo muito direcionado, então, por fins literários, imagino que seria abolido. Sendo assim, tudo continuaria como já se encontra, ou seja, pregadores continuariam construindo impérios monetários em nome do senhor e nada seria contestado, exceto por uma pequena minoria que seria continuadamente silenciada.

Entretanto, em algumas situações o furto divino adquire proporções “bíblicas”, e acaba não podendo ser encoberto com a imagem do homem-invisível sem que explicações convincentes sejam anunciadas para todo o globo. A própria esfera da igreja católica, por exemplo, condena-se (não o suficiente, obviamente), quando o assunto é morte ou roubo com cunho divino. Os eclesiásticos de hoje manifestam um tímido sentimento de vergonha perante os crimes cometidos por séculos em nome do homem-invisível, tais como cidades pilhadas, territórios anexados com o uso expressivo da força, populações arruinadas e sonhos despedaçados. Realmente, contra fatos não há argumentos, e a saída menos vexatória é o reconhecimento do erro e a tentativa ridícula de um mísero pedido de desculpas!

Não sei quanto a você, leitor, mas se um bando de homens famintos, irracionais e prepotentes invadisse minha cidade, carregando consigo todos os meus pertences, violentando e/ou torturando os membros da minha família, e por fim, tornando o que um dia foi uma vida em uma chuva incessante de cinzas, eu não aceitaria um simples pedido de desculpas.

Afirmo que os sentimentos de impotência e desespero despertados em todas as pessoas que sofreram por causa da igreja têm mecanismos de funcionamento semelhantes aos de um antigo filme fotográfico: uma vez impregnados os detalhes daquilo que é visto, esses jamais poderão ser apagados.

As desculpas podem ser aceitas, mas os estragos psicológicos causados serão permanentes.

8. Não levantar falsos testemunhos (nem de qualquer outro modo faltar à verdade ou difamar o próximo).

O homem, independentemente de suas convicções e ideologias, vive uma grande mentira coletiva. Acreditamos naquilo que assistimos na televisão, incorporamos às nossas mentes aquilo que lemos em revistas, adequamos o nosso modo de viver com aquele que desponta nas telas dos cinemas. Tudo isso para que possamos ser “aceitos” na sociedade, sem que haja qualquer manifestação de menosprezo por parte dos outros primatas racionais. Ou seja, estamos diariamente faltando com a verdade diante de nossas mentes para simplesmente agradarmos aos demais que nos cercam, criando uma ridícula simbiose.

Estamos mentindo cotidianamente para nós mesmos, e o mais incrível é que acreditamos em nossas próprias mentiras e continuamos vivendo como se nada houvesse de anormal. E acabamos vivendo bem assim!

Diariamente, mortes ocorrem, sejam elas naturais ou provocadas, mas acabamos contrariando a lógica da vida quando cremos que somente os outros morrem, enquanto nós continuamos vivos e fortes, para toda a eternidade.

Resumindo, estamos novamente mentindo perante a lei da vida.

Assim, acabamos deixando a morte fora de nossas conversas, tornando-a um tabu, algo que é dificilmente encarado com naturalidade. Isso resulta em pais mentindo para filhos, quando dizem que esses nunca morrerão, ou em aventureiros que tentam ludibriar seus próprios limites, quando dizem que “nada poderá detê-los”.

A mentira é o monarca do nosso mundo, criando falsas idéias que são incorporadas com a mesma facilidade que se liga um televisor, ou obscurecendo as idéias verdadeiras com a mesma velocidade que um raio usa para atingir a terra. Creio que o próprio homem não estaria preparado para viver em um ambiente sem mentiras. Somos enganados desde o instante em que nascemos, e acabamos encarando a mentira como algo banal. Claro, existem mentiras inadmissíveis, como aquelas cometidas por um homicida que nega veemente o seu envolvimento em um crime, mas, infelizmente, as grandes mentiras são misturadas repetidamente com as mentiras corriqueiras, e no final, estas acabam sendo vistas apenas como mais um chamado do noticiário do jornal da noite.

Agora imagine se o homem-invisível resolvesse punir todos aqueles que mentem. A população mundial desapareceria como que num espetáculo de mágica circense, porém os palhaços do circo terreno continuariam a crer que os seus lugares estariam garantidos ao lado do todo-poderoso.

Mas, será que os cristãos já pausaram seus pensamentos religiosos por alguns míseros instantes e cederam espaço para a seguinte idéia: “o homem-invisível pode ser alguém dotado de sentimentos e ações semelhantes aos dos humanos”? Sendo assim, o todo-poderoso poderia ter professado uma “mentirinha” quando garantiu o reino dos céus para os puros! Se eu fosse cristão, começaria a pensar usando um pouco mais de malícia, para evitar surpresas desagradáveis!

O mundo seria melhor sem mentiras? Posso responder que talvez, mas a resposta “sim” chegaria a aprontar seu lugar no meu pré-consciente. Entretanto, para isso, seria necessário um grupo de pessoas realmente determinadas e incansáveis para que as portas de todas as igrejas pudessem ser fechadas, ou a maior provedora de mentiras continuaria a enganar aqueles que não conseguem enxergar com seus próprios olhos.

Seria um trabalho desgastante, mas com certeza eu seria voluntário!

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