Escrevi, há tempos, sobre quão antigo é o mal gerado pelo nascimento de uma religião, composta basicamente por um punhado de premissas inexistentes, que corroem aos poucos os diminutos traços de razão que o ser humano conseguiu adquirir em sua longa trajetória de evolução.
Mas, como será que, efetivamente, nasce uma religião?
Ao contrário do que você pode imaginar, não existe a necessidade de uma multidão de devotos, ou de uma horda de pregadores embriagados pelo poder. Há apenas um requisito básico para que uma nova ordem religiosa - um calabouço que trancafia em suas entranhas o lado humano do ser - surja tão repentinamente quanto a rápida chuva de verão: a ignorância humana.
Por comodidade, preguiça e falta de discernimento, o homem consegue atribuir significados estapafúrdios para coisas que, se fossem processadas através da lógica racional, poderiam ser prontamente explicadas, ou ao menos suficientemente compreendidas. Isso é tão verdade que, nos primórdios, as civilizações eram evidentemente politeístas, uma vez que atribuíam aos diversos deuses fenômenos naturais posteriormente detalhados por mentes abertas aos sinais da própria natureza, e não trancafiadas em um mundo celestial habitado por criaturas sádicas e impiedosas.
Deparando-se com aquilo que não conhece, o homem simplesmente atribui-lhe um significado divino, já que seu comodismo impede que as enferrujadas engrenagens de seu cérebro ainda primitivo trabalhem em ritmo constante e eficiente. Sempre que o tolo homem esbarra no desconhecido, o poder do todo-poderoso ente invisível cresce absurdamente, fortalecendo a crença que ele, o próprio homem, criou e moldou com sua arrogância e seu desconhecimento.
A religião, então, nasce da ignorância. Mas não é somente a falta de conhecimento que torna a religião imortal, inatingível: aí entram os aproveitadores, aqueles que possuem intelecto superior aos néscios fiéis religiosos, e que sabem como moldar legiões de seguidores de acordo com seus propósitos.
Assim nascem os pregadores.
Perceba que os pregadores não precisam exaurir seus pensamentos buscando meios de criar uma força suprema que exorta a submissão dos povos. Não, isso não é necessário, uma vez que o homem submisso já realizou todo esse estafante trabalho através do distanciamento das explicações lógicas e da aproximação do mundo de faz-de-conta. Resta ao pregador apenas administrar esse poder inventado pelo humano (e por ele venerado), usando-o como fonte de realização de seus próprios ideais megalomaníacos.
Como é triste ver alguém abdicar de sua independência psicológica para favorecer uma estória desprovida de nexo, agarrando palavras rasas de pregadores inescrupulosos como se fossem essas a única salvação de suas vidas! Nada é mais deprimente do que assistir a decadência do homem, abdicando de tudo daquilo que o faz merecedor do título de racional em prol de uma vida tão vazia quanto as palavras em que crê piamente.
Vários religiosos pregam que “é preferível acreditar em Deus e estar garantido no Apocalipse a abdicá-lo e sofrer as consequências no dia do juízo final”. Mais uma prova da comodidade dos mesmos! Na realidade, há uma preferência pela informação já digerida, pela facilidade de aderir ao pensamento mais divulgado e pela necessidade de “navegar a favor da correnteza”. Contraditoriamente, diz-se que a preguiça é um dos sete pecados capitais…
Esse medo infantil de um eventual fim do mundo é uma poderosa arma usada pelas igrejas. Já que o homem criou a religião, Deus e todos os seus complementos pelo simples fato de temer o desconhecido, nada mais fácil que reutilizar esse mesmo medo para manter esse ser “racional” em seu alto grau de submissão intelectual.
Ainda hoje, há cristãos que enxergam Deus em tudo: nas tragédias e nas alegrias, nas conquistas e nas derrotas, nos êxitos e nos fracassos, nos acasos e nas coincidências, no “céu” e no “inferno”, na vida e na morte. Essas pessoas estão eternamente maculadas pela ignorância e, provavelmente, irão morrer assim. Mas à medida que os fatos vão sendo esclarecidos, os mistérios desvendados, os mitos destruídos e as lendas enterradas, Deus vai sendo diminuído. Haverá, então, um momento em que absolutamente nada poderá ser atribuído a Deus.
Seria essa a morte da religião?
Infelizmente, sempre haverá algum resquício de medo ou de ignorância em algum homem, e esse aparentemente inexpressivo ser conseguirá perpetuar a mesma velha e desgastada estória, tornando a desprezível religião imortal.
Eu imagino um mundo assim.Onde o progresso por meio de uma evolução intelectual constante se estabeleça na sociedade, e no lugar das aulas de religião, mais ciência.No lugar de programas sensacionalistas e religiogos, consagradas séries como Cosmos, Poeira das Estrelas e programas sobre ciência.
Sim, ateus têm esperança.
Obrigada pelo acréscimo de conhecimento.
Comentário de PsychoGirl — 26 Agosto, 2008 @ 2:03 am