É notável a influência que um calhamaço de páginas desconexas e incongruentes exerce na vida de pessoas deliberadamente afastadas das luzes do conhecimento. É, porém, assustador notar o sistema organizacional que gerencia essa complexa rede de pessoas submissas e simultaneamente frágeis.
Consecutivamente, percebo que a religião e a política são temas convergentes, por não dizer complementares. Os métodos de persuasão, de embustes pré-definidos, são perceptíveis em ambas as áreas degeneradas da cultura humana, e a força centrípeta que as falácias produzidas tanto pela política quanto pela religião exerce sobre as massas é impressionante, puxando para o centro de suas instituições deploráveis mentes errantes, desprovidas da capacidade de diferenciação entre o real e o objetivo e o irreal e fantástico.
Em comícios ou em celebrações religiosas pode-se constatar, indubitavelmente, o reforço de uma idéia desconexa pré-existente através de uma massa inculta homogeneamente insensata, isto é, o partidário ou o devoto já atendeu o requisito de ter passado pela “primeira etapa no processo de adestramento”, situação em que os ideais partidários (abrangendo-se aqui tantos os políticos quanto os religiosos, pois o princípio de ação é o mesmo) vão sendo paulatinamente difundidos e incorporados ao íntimo dessa “vítima da propaganda”, enraizando em sua índole a necessidade de formação de uma população diferenciada, composta somente por aqueles que possuem o mesmo sentimento lamentável de dependência e irracionalidade. Desse modo, quando chega ao seu encontro religioso, o crente não se depara com uma reunião composta de falas equivocadas e adeptos distantes, mas sim com uma nova ordem, uma grande família que compartilha os mesmos pensamentos irreais e a mesma necessidade de submissão intelectual. Uma vez adestrados, os religiosos não abandonam mais seu novo lar, obedecendo fielmente aos seus donos, tais como cães.
Um religioso não busca a igreja para ouvir estórias fantásticas, ou para fortalecer o seu espírito com banhos de otimismo. Um religioso vai à igreja para ouvir aquilo que ele, incontestavelmente, sabe que irá ouvir, uma vez que as palavras podem mudar, mas o teor sempre permanecerá o mesmo.
Não há novidade alguma em uma missa. Tudo o que é repassado pelo pregador já foi ouvido, processado, discutido e incorporado por todos os correligionários espirituais em tal evento presentes. Porém, realmente não há necessidade de novos temas, visto que o fiel, por excelência, não possui um poder de raciocínio desenvolvido, sendo que longas palavras maquiadas pela beleza da escrita não surtem o mesmo efeito que palavras simples, porém consistentes e repetitivas.
A grande virtude dos pregadores é o conhecimento de seu público-alvo. Ao invés de se produzirem textos inteligentes, os quais permitem uma reflexão que exige muito mais do que apenas uma área cortical cerebral, usa-se a técnica da repetição, que tem o poder de cimentar uma idéia no íntimo da psique humana. Assim funciona a música que você ouve todos os dias, assim funciona a religião.
O religioso não crê em Deus, em seu majestoso império ou em seu filho-prodígio, mas sim em uma estória que vem sendo repetida a milhares de anos, construída como uma fábula incrível e, aparentemente, indestrutível. A religião pode ser resumida a uma incurável mentira patológica, que consome vagarosamente o senso de realidade da humanidade.
É, entretanto, impensável privar hoje a sociedade de seus credos religiosos. Se a religião fosse equiparada a um vil seqüestrador, o religioso seria a vítima acometida pelo Mal de Estocolmo. O religioso criou um vínculo tão forte com a igreja que, mesmo ciente das mentiras cotidianas dirigidas a ele e aos seus correligionários, consegue manter uma relação de submissão e impotência assustadoramente inegável. Não obstante, o fiel ainda desperta em si um espírito de compaixão e de proteção que vai além da compreensão humana, defendendo com todo o seu vigor o seu próprio torturador.
Um religioso não é feliz enquanto vivo, uma vez que a sua maior ambição é encontrar na morte um sentido para sua nula existência em vida. O verdadeiro fanático religioso abdica de si com uma crueldade desumana, vendendo o que sobra de seu inerte corpo a sua causa falida: a perpetuação de sua grotesca espécie.
Esse ente tem como missão vagar como um sonâmbulo procurando trazer para os braços dessa macabra instituição chamada igreja aqueles que, por seus próprios meios, não conseguem manter o curso de suas vidas em um plano reto, sem solavancos, e que acreditam ser possível reiniciar o percurso sem sofrer atrasos ou avarias simplesmente recorrendo ao auxílio divino.
Através de pregadores e mitingueiros, o partido religioso se alastra na mesma velocidade com que o fogo consome um barril de pólvora. Dotada de partidários cegados pela ignorância e de membros superiores tomados pela ganância, essa instituição torna-se única e inabalável, e continua a controlar as grandes massas populacionais ao redor do globo, impondo uma atmosfera de escravidão intelectual, ao menos até que os seus próprios componentes comecem a enxergar a situação pelo prisma da racionalidade.
Infelizmente, é melhor esperarmos sentados.