Nossa cultura nada mais é do que uma coletânea de informações oriundas de diversos povos e mentes, formulada através de infinitas combinações de idéias, as quais acabam sendo incorporadas como algo banal e corriqueiro, porém de valor inestimável e presença constante. Vários hábitos que hoje possuímos fixam suas raízes num passado remoto, como as danças, as comidas, os credos e as superstições.
Algumas situações enfrentadas no mundo hodierno possuem hoje um caráter místico exagerado em conseqüência de anos de transformações (e imposições) ocorridas em mentes despreparadas, constituites de sociedades que foram adaptando outras crenças e acatando novas correntes filosóficas, para, por fim, juntar tudo num mesmo palanque ideológico, idolatrado por muitos e discutido por poucos. A morte, por exemplo, é ainda considerada um tabu, uma vez que não vislumbro ninguém sentado em uma mesa de bar com os amigos para discutir a morte do vizinho: o falecimento é encarado como algo supremo, indiscutível, impassível de opiniões; um assunto impraticável, porém inquietante.
Por que não discutimos a morte? É uma questão difícil, porém tentarei responder de forma simplória, contudo, contundente: porque as religiões não querem que a morte seja discutida. O falecimento é a ponte imaginária que conecta um indivíduo comum a um ser celestial, de gritante bondade e incontestável inteligência (espiritual ou funcional). Se a morte fosse assunto de discussões, essa ponte imaginária simplesmente ruiria.
Qual é, então a desculpa utilizada por qualquer pregador quando algum indivíduo falece, independente de causa? Os sermões praticados por qualquer pregador religioso possuem um conteúdo parecido com este:
“Ora, assim quis o nosso senhor. Certamente, no céu, pessoas boas também são necessárias. Lá, poderão gozar do privilégio de sentarem próximas ao criador, assistindo de camarote ao seu triunfante governo”.
Alguém morre porque Deus assim quis, e ponto final. Ninguém morre de câncer, tuberculose, pneumonia, acidente de trânsito, infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral ou cirrose hepática. Essas patologias nada mais são do que um castigo divino, um bilhete de ida para o mundo dos céus, onde um Deus “piedoso” aguarda de braços abertos, a não ser, é claro, que você tenha que fazer um escala no purgatório (e, provavelmente, você não escapará dessa visita).
A morte é um fato, a única certeza absoluta na vida de qualquer indivíduo. Vivo hoje sabendo que um dia (mais…)