Michel Onfray, filósofo e escritor francês, foi muito feliz ao escrever em seu “Tratado de Ateologia” que o homem fez de Deus seu espelho dotado da capacidade de formar uma imagem invertida. Para esse ente magnífico, foram atribuídas todas aquelas capacidades inatingíveis pelos humanos, tais como imortalidade, onipotência, onisciência, onipresença, infalibilidade e outros incontáveis adjetivos incompatíveis com a física e a psique humana.
Deus foi construído para dominar uma massa populacional com ritmo de crescimento exponencial, para fornecer uma forma de escape para as desilusões, frustrações, abdicações e, principalmente, para a ignorância, qualidade inerente e incorrigível dos fiéis religiosos.
Explicações extraordinárias para o que não sabemos são criadas desde os nossos nascimentos. Somos ludibriados com vários contos da carochinha; somos afastados do conhecimento primordial para entrarmos em contato com uma nascente de informações falsas, absurdamente impossíveis e amplamente difundidas; somos penalizados com a adoração eterna a um ser imaginário antes mesmo de termos consciência de quem somos.
Deus é uma comodidade, uma forma mais simples e direta de dizer que não se conhece nada além do que as igrejas e seus pregadores querem que seja sabido. É uma farsa, um fantoche, um oásis num deserto inóspito, habitado por vidas que juram ter encontrado a fonte rejuvenescedora, sagrada, mas que acabam se enterrando em areia movediça, afastando-se da luz da sabedoria. E a sabedoria não é simplesmente um vocabulário bonito, de difícil compreensão, ou a citação de famosos que sucumbiram há séculos, mas, também, a incorporação dos fatos cotidianos e a sua interpretação como algo necessário, porém banal, sem atributos divinos, toques celestiais ou moderações deíficas.
A criatura divina é uma forma de chegar mais rápido ao nada, é a construção de algo invisível, é o nascimento de alguém que não foi concebido. Várias religiões confeccionaram diferentes deuses, adequando-os aos seus costumes, mas sempre com o intuito de manipular os crentes, forçando-os, consciente ou inconscientemente, a fazer atos diversos para a obtenção de qualquer espécie de benefício, desde a agregação de novos territórios até o extermínio de mentes divergentes.
Guerras existem, enquanto que a paz é pura demagogia. Pessoas felizes existem. Pessoas perfeitas, entretanto, não. A força de vontade e a auto-sugestão são fatos, ao passo que os deuses são estórias.
Vi na televisão pessoas atribuindo a cura de suas “enfermidades” à intervenção divina. Senti-me enojado, pois, à medida que os pobres ingênuos narravam seus casos fantásticos, um “missionário” hipócrita sorria com descaramento, deixando escapar em suas feições um espírito de deboche e descaso revoltante. Porém, contraditoriamente, os “curados” só faziam agradecer ao “missionário” e ao Deus todo-poderoso. Além de estarem garantindo o certificado de ignorância-mor, esses fiéis acabam simultaneamente subestimando-se, diminuindo o poder de suas mentes (mais…)